A Vida Invisível de Eurídice Gusmão – Martha Batalha

Passando pelos cômodos. Alimentando o marido, as crianças. A docilidade, a amante sem desejos próprios. A mulher exemplar. Te apresento Eurídice Gusmão, a mulher invisível, aquela que poderia ter sido.

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SINOPSE

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“Avida invisível de Eurídice Gusmão”. Companhia das Letras, 2016.

       Uma mulher que vive sua vida entre as décadas de 1920 à 1950 chamada Eurídice Gusmão é a nossa protagonista. Guida sumiu, a irmã querida de Eurídice, a caçula. Ela se foi e, pouco depois, Eurídice casa com Antenor, aquele que achava ter feito um ótimo negócio encontrando a mulher mais simples das redondezas, aquela que nunca levantava o queixo, que vivia para ser a boa moça que a sociedade patriarcal da época queria que ela fosse. Impunha que ela fosse. Porém, não só de Eurídice esse livro primoroso é feito, nele temos Das Dores, Zélia, Guida, Antenor, Seu Manoel, Filó e tantos outros.
Temos no começo um prólogo onde a autora relaciona suas personagens principais, Eurídice e Guida Gusmão, às suas avós. Porém, ela fazendo essa relação ou não, é impossível para não pensar, também, nas nossas próprias ao ler a obra. Nas tantas Donas Zélias que, ao descobrir que aos olhos dos outros bonita não era,  passou a usar os próprios olhos (e ouvidos) para fazer vingança contra o mundo por meio da fofoca; ou tantas Das Dores, pegando conduções lotadas e aguentando desaforos da patroa.
       Uma das marcas mais bonitas desse romance é a profundidade poética e leve que Batalha consegue incutir em todos os personagens, do dono da papelaria de jeito ansioso à ajudante de costureira, que não ocupa muitas linhas mas que já tem mais dimensões que protagonistas de muitos livros aclamados e best-sellers por aí.

 


INVISIBILIDADE EDITORIAL

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Martha Batalha

        É curioso pensar que a invisibilidade das “Eurídices” continue a acontecer, anos depois da época de nossas avós. O livro de Martha Batalha foi recusado por editoras brasileiras e por aqui só saiu após o sucesso no exterior o levar a ser traduzido por  dez línguas. Como ressalta a pesquisadora Paula Queiroz :

“A dificuldade de publicação é uma constante para muitas escritoras que estão produzindo textos Brasil afora, revela o sexismo presente no mercado editorial brasileiro, assim como nos principais prêmios literários, que têm premiado quase sempre autores homens”. 

 

 


SOBRE DOR E AFETO

       A forma como conhecemos Eurídice é através dessa escrita poética de Batalha, que mistura toques de humor com uma profundidade toda sua, nos faz rir, mas também dá socos no estômago à cada linha. Eurídice é uma mulher cheia de vontade de ser e talentos para conseguir, porém, é na incapacidade dela de se desenrolar do regime patriarcal que percebemos o principal tema do livro: o porquê Eurídice não podia ser Eurídice.
Sua irmã Guida tão pouco consegue sucessos maiores em sua fuga. O abandono da mulher, o espaço opressor da casa e como era importante que as senhoras “se dessem ao respeito”, “fossem mulheres de bem”, “recatadas”, permeiam a leitura. Por trás desses adjetivos o que se tem é uma necessidade social de conter essas mulheres em fôrmas extremamente cruéis que as compactariam para serem mães, arrumadeiras e um bom conforto para o marido à noite.
       Apesar do conteúdo duro, o livro é cheio de afeto. O afeto da empregada  pelos próprios filhos que precisa deixar em casa para ir trabalhar; afeto de Antenor, marido de Eurídice, pela mãe que nunca o ofereceu estabilidade na infância; afeto da ex-prostituta Filó pelas crianças que abrigava, sobretudo, por Chico; afeto que adoece a mãe de Guida pela falta de Guida. Ao narrar a linha principal do romance, a vida de Eurídice e sua invisibilidade, a autora conta muitas outras histórias deixadas pelo caminho, dando a sensação de que o livro poderia durar indefinidamente e, ainda assim, não nos desgrudaríamos das páginas.


BELAS, RECATADAS E “DO LAR” *(pode ter spoillers da obra)

       Em seu livro “Mulheres dos Anos Dourados”, Carla Bassanezi analisa revistas brasileiras do período de 1945 a 1964 no Brasil, mapeando os modelos de feminino considerados ideais à época. Sobre os requisitos necessários para uma “mulher ideal”, Bassanezi nos apresenta o que era “adequado” segundo o “Jornal das Moças”:

“Se a jovem é muito ‘moderna’ (ousada consciente da sua sensualidade) não é bem vista, a ‘antiquada’ (tímida demais, incapaz de animar uma conversa), também não agrada. Porém a bagagem cultural (adquirida em leituras e no contato com peças de teatro, filmes e obras de arte) é valorizada principalmente em função da conquista amorosa. Não está em jogo, portanto, em “jornal das Moças”, o aprimoramento intelectual da mulher como uma forma de autossatisfação ou emancipação pessoal”

        Essa faceta fica muito patente no livro de Martha Batalha. Eurídice tenta encontrar significados para sua existência em várias frentes, todas elas lhe são negadas. Ora o prazer de cozinhar a leva a ter sonhos escritos num caderninho preto, ora costurar pode ser algo que ela faça por si… mas não. Não se pode fazer nada, não se deve. A emancipação da mulher é um empecilho à sua docilidade servil, letargia feminina era igual à ideal. Como Bassanezi explica, as qualidades adquiridas pela mulher estavam condicionadas ao marido, ao prazer do outro, não ao seu próprio.

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Edições de “O Jornal das Moças” e da revista “Querida”.

A PARTE DE EURÍDICE QUE NÃO QUERIA QUE EURÍDICE FOSSE EURÍDICE *(pode ter spoillers da obra)

       O problema é que Eurídice percebeu o vazio. Ele estava lá, se revirando, caindo para frente e para trás igual um joão bobo: quanto mais forte era socado, com mais força voltava para a posição inicial. A dor de Eurídice era assim, um buraco negro que sugava todos os planos que ela inventava para preenchê-lo.
E quando o leitor percebe isso, ele é apresentado ao famigerado personagem “a parte de Eurídice que não queria que Eurídice fosse Eurídice”. Sim, esse é um personagem muito importante, vamos chamá-lo de “a parte”, para facilitar. Essa “parte” nasce quando a nossa protagonista percebe a dor e a frustração que o sumiço da irmã Guida deixou em seus pais, um casal de portugueses de vida simples que mantêm uma quitanda. Para agradá-los e se tornar uma “boa moça”, Eurídice abre mão de querer fazer um monte de coisas: tocar com Villa Lobos, estudar, ter planos. À medida que esse lado morre, nasce forte “a parte”. Mesmo com toda força e empreendedorismo, com toda a criatividade que vemos nela, essa “parte” sempre a coloca “em seu lugar”, o lugar do buraco negro, o lugar sem brilho e sem sonhos, o lugar da “pobre Eurídice” que, justamente por ser assim, atraiu as atenções de Antenor: “isso é que é mulher!”
       Algo sutil, mas curioso é o fato de Eurídice sempre se incomodar. Esse incômodo não a deixa se entregar ao desespero do nada que para a ela a sociedade legou. Eurídice começa um projeto, ele vira pó, ela transforma o pó em outro projeto, ele morre, até que descobre a escrita.

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Orfeu e Eurídice, pelo artista Johann Leonhard Baur, 1716.

       Não sei se a autora escolheu ao acaso mas, assim que li no nome “Eurídice”, me lembrei da lenda grega. Segundo ela, Orfeu, o poeta mais genial que jamais existiu, apaixona-se pela bela Eurídice e casa-se com ela. Pouco após o casamento, a moça chama a atenção do apicultor Aristeu e, fugindo dos seus avanços, acaba picada por uma cobra e morre. Arrasado, Orfeu adentra os infernos para recuperar a amada e negocia com o próprio Hades, deus do mundo inferior, para conseguir torná-la viva novamente. A mim parece que, assim como a Eurídice grega, nossa protagonista inspira a própria Arte a se apaixonar por ela. Em tudo que faz sai do medíocre, seja na carne com “aquele molho marrom” que Antenor adora, até as roupas incríveis que criava. Quando parece que o vazio a consumiu de todo, que “a parte de Eurídice que QUERIA que Eurídice fosse Eurídice” estava para sempre esquecida no mundo dos mortos, a Arte a salva, emancipando-a através dos livros e da escrita.

***ESSA FOI MINHA PRIMEIRA RESENHA DO “DESAFIO LITERÁRIO 2020”, CLIQUE AQUI PARA VER QUAIS SERÃO AS PRÓXIMAS!

five stars

Jovi

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