Dois para conquistar – Marion Zimmer Bradley

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Arte de David A. Cherry

Acredite se quiser, mas esta é uma história sobre redenção e empatia.

Dois para conquistar” não é recomendável para aqueles que querem começar a ler os livros da série Darkover. E menos recomendável ainda caso este seja o seu primeiro contato com a autora. Porque? Bem, esta história tem como personagem principal um ser odiável que se divide entre o herói e o vilão (talvez, mais vilão).

“Algo lhe passou pela memória, sempre fora perigoso espionar os mistérios femininos e, por essa razão, todas as sociedades sensatas sempre haviam proibido os mistérios das mulheres.” (Dois para conquistar)

O livro “Dois para conquistar” faz parte da série de livros, de ficção científica, do universo Darkover. Assim como TODOS os livros da série, esta é uma história independente e você não ficará preso em uma trama de 200 mil livros sem saber qual é o final da história. E, caso queira revisitar mais este universo pode contar com outros tantos livros de Darkover.

dois para conquistarAfinal, o que é Darkover? Na verdade isso não é uma questão essencialmente importante para a apreciação de qualquer um dos livros deste universo, pois além das histórias serem independentes elas são centradas nos personagens. Mas o contato com esse lugar causa interesse. Em resumo, Darkover é o nome do planeta principal do universo criado por Marion Zimmer, este é o único planeta habitado por humanos. A série é dividida em eras, mas a ordem cronológica das publicações não seguiu por esta ordem (aliás, a própria autora recomendava considerava recomendável ler os livros pela ordem de publicação por causa da evolução de sua escrita – coisa que eu não fiz).

Mas para situar nosso livro de hoje, “Dois para conquistar” passa no início do período chamado de Os Cem Reinos – isso porque, após o fim da Era do Caos, as terras daquele planeta foram divididas em pequenos reinos (bem mais de cem). A atmosfera do livro é o periodo medieval, com contribuições dos conhecimentos mágicos daquele universo. Através da magia, os humanos de Darkover desenvolvem tecnologias e habilidades fantásticas. Com tantos reinos e fronteiras é de se esperar que este tempo seja marcado por invasões, guerras e alianças (entre elas, alianças de casamentos).

Conforme já mencionado, Darkover é um niverso de ficção fantástica onde a magia se faz presente. As pessoas podem nascer com um “dom” chamado de Laran e com ele ter poderes como telecinesia, ou clarividência, entre outros dons mágicos. Por causa do Laran, os seres humanos podem fabricar armas mágicas que têm poderes de destruição em massa, eu diria que similares aos de uma bomba atômica porque deixam o solo e as pessoas infectadas (se quiser saber um pouco mais sobre o Laran, não deixe de ler nossa resenha sobre o livro “A rainha da tempestade“).

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Arte de Tim White

Bem, este é o quadro geral de Darkover em “Dois para Conquistar“. Mas claro, Marion escreve suas histórias centrando nos personagens, é um mundo fantástico com problemas “humanamente reais”. A história é centrada em Bard, um rapaz ambicioso e que tem se mostrado uma grande promessa nas artes da guerra. Bard tem uma origem bastarda, mas nobre, por suas habilidades conquistou a confiança do seu tio, o Rei das Astúrias. Mas existem dois grandes problemas com Bard, ele acredita que todos os seus erros e problemas são causados pelas outras pessoas, que todas as pessoas lhe querem fazer mal ou lhe ver pelas costas. Ele se sente inferior aos primos por não ter uma origem totalmente nobre, e acredita que todos caçoam dele. Para Bard, uma das principais causas de todos os seus problemas são as mulheres, ao começar por sua própria mãe, ele a culpa por tê-lo abandonado. Por suas decepções ele se tornou um adulto misógino, o que torna sua história um tanto que sombria e pesada, não me adimira que alguns leitores a abandonem.

“- Nenhum nascimento é amaldiçoado […] As festas são para confortar o coração dos ignorantes; aquele que é sábio tem conhecimento de que é a deusa quem dá a bênção. Porém, como é possível que uma coisa confortadora seja uma bobagem?”  (Dois para conquistar)

Sobre este aspécto me parece ser uma história atípica ao estilo Marion. A autora é conhecida por suas grandes protagonistas femininas e em “Dois para conquistar” a história é extremamente centrada em Bard, e Bard não é nem um pouco porta- voz de um questionamento sobre a liberdade e respeito do seres humanos. São poucos os trechos do livro onde é possível saber o ponto de vista dos outros personagens. E muito menos o ponto de vista das mulheres. Mas é mentira se alguem te disser que Marion não escreve pelo ponto de vista dos homens, e A rainha da tempestade é um exemplo disso, a história é quase toda contada pelo ponto de vista de Allart.

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O outro lado do espelho – de Richard Hescox

Mas Marion continua contando sobre os mesmos assuntos e por mais que você sinta aversão sobre alguns pontos da história é impossível negar que Bard é um grande personagem, e ele é muito humano. E talver por isso que seja tão difícil de aceitar a história, pois caso ele fosse apenas a encarnação de tudo o que é ruim isso estaria longe de ser um humano e você poderia se ver distante de todo o mal que ele provoca. Como humano, ele está mais perto de você, não é bom olhar para um espelho e notar seus defeitos e podridões.

O livro é dividido em três partes, e cada uma delas marca um ponto significativo da vida de Bard, a primeira parte é “Sete anos antes… Os irmão de criação” onde vamos conhecer sobre Bard – todos os lados, as virtudes e os defeitos; a segunda parte chama-se “O Lobo de Kilghard” que é o título/apelido que Bard recebe por seus atos, e é possível acompanhar a evolução de dois sujeitos dentro de Bard que são o grande vilão e o herói de Astúria; a última parte “O sósia secreto” fecha o livro e é a parte que dá nome e sentido ao título, pois formula-se a tese de que seriam necessários dois Bards para conquistar os Cem Reinos. Nesta última parte temos um maior envolvimento dos conhecimentos mágicos de Darkover, conhecimentos mais ocultos, e duas coisas que eu considero importantes para o fechamento da história, que é o conceito de redenção e empatia, mas não será fácil de compreender.

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Arte de Tim White

O que apreciamos sobre Darkover em “Dois para conquistar“? Bem, muita coisa é aprendida sobre este universo, mas eu gostaria de destacar a Ilha do Silêncio. Conhecemos um pouco mais sobre a Ilha do Silêncio e as sacerdotizas de Avarra neste livro. E para quem tem alguma familiaridade que seja com as Brumas de Avalon vai perceber a ligação entre estes universos a partir desta ilha e da deusa.

“- A deusa é uma só, não importa o nome que ela própria possa adotar, ou qualquer nome que o ignorante lhe dê.” (Dois para conquistar)

A ilha é coberta por uma bruma e nenhum homem é bem-vindo por lá. A ilha é protegida por feitiços e só entra quem for autorizado. As mulheres de Darkover procuram as sacerdotizas para os mais diversos problemas femininos e são ajudadas na medida do possível. Apesar de sua “nobre missão” as sacerdotizas não são um dos mais puros dos seres e podem se mostrar um tanto alienadas em relação às condições do planeta em que vivem.

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Arte de capa “Snows of Darkover”, artista Tim White.

Os personagens mais intrigantes da história, ao meu ver, são as leronis Melisendra e Melora. Leronis são mulheres que possuem treinamento para domínio do Laran – que é uma habilidade mágica. O homem que tem essas mesmas habilidades e treinamento chama-se Laranzu. Eu diria que o próprio Bard é um personagem muito singular, mas Melisendra e Melora são uma voz para os assuntos que Marion gosta de expor em seus livros, são elas que formulam as perguntas mais pertinentes.

Se você está na leitura desta obra, não desista. Se você é um leitor de Marion Zimmer, ficariamos felizes se você compartilha-se suas experiências e indicasse alguns livros da autora aqui pra gente, ou outros livros de fantasia e ficção científica, por que não?

A série Darkover não é muito famosa no Brasil, e nem todos os livros foram traduzidos para português 😦 (mas boa parte já foi 🙂 ). As lendas contam que não é difícil de encontrar os livros da Marion nos sebos em preço de “banana”, então caso você fique interessado em visitar Darkover – FICA A DICA. Pode ser que um dia alguma editora decida relançar os livros da Marion (porque as edições brasileiras são bem velinhas), se alguem souber de alguma coisa, comenta qui em baixo!

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Juh

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