Medieval: contos de uma era fantástica — Vários autores

9bc70257d86c3e510594fdfdeda8e322.jpgMedieval: contos de uma era fantástica é um livro que promete, mas será que ele chega a ser? Muitas pessoas tem elogiado o belo trabalho de edição e arte de capa produzido pela editora Draco, mas esse deve ser apenas a cereja do bolo. Lembre-se >>>”Não julgue um livro pela capa.”<<<

Primeiro, a sinopse do livro:

medievalUma viagem à época onde mora a fantasia. Por cerca de mil anos, a roda da História girou num ritmo vertiginoso: castelos e fortalezas se ergueram e foram destruídos, cidades se multiplicaram, guerras sangrentas se alternaram com períodos de paz. Migrações, invasões, o surgimento da imprensa e, por fim, as grandes navegações expandiram os limites do mundo. Tudo isso marca o período conhecido como Idade Média, que nos legou incríveis narrativas povoadas de seres mágicos, fadas, bruxas e encantamentos. Foi esse imaginário que inspirou os autores de “Medieval: contos de uma era fantástica” a contar suas histórias. Das cruzadas às invasões vikings, passando pela Espanha mourisca, Oriente Médio, China e pelo Japão dos samurais, todos os contos são ambientados em lugares do mundo real — no tempo em que o fantástico e o maravilhoso se mesclavam naturalmente aos eventos do cotidiano. Organizado pelos especialistas em Idade Média e ficção histórica Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse, eles participam com contos cheios de magia ao lado de Melissa de Sá, A. Z. Cordenonsi, Roberto de Sousa Causo, Erick Santos Cardoso, Nikelen Witter, Karen Alvares e Helena Gomes. Com esse livro você irá viajar pelo tempo e pelo espaço, para essa época onde sempre se imaginam os mais incríveis mundos de fantasia. Num tapete mágico, num drakkar, num corcel de batalha — ou simplesmente nas asas de sua imaginação.

87f7ee92884c148eedeb919adbfa8761Em resumo, a proposta do livro é justamente que todos os contos sejam “ambientados em lugares do mundo real [na idade média] — no tempo em que o fantástico e o maravilhoso se mesclavam naturalmente aos eventos do cotidiano”. E, com relação a isso, eu lhes deixo a pergunta: o que você esperaria de um livro desses?

Bem, se tratado de contos com contribuição de vários autores, eu esperava encontrar diferentes estilos de escrita, e, quanto a isso, não posso negar, é o que acontece, sim. São todos brasileiros e eu realmente esperei encontrar o melhor de cada um ali, afinal, qualquer texto lido de um autor pode ser “a porta de entrada para mais leituras”, mas não é o que acontece (por isso abro uma dúvida aqui, eu não sei em quais circunstâncias esse livro foi organizado, se os autores já tinham esses textos escritos, se tinham uma agenda cheia a cumprir e pouco tempo para a escrita, enfim, nós sabemos que, no geral, o cenário não é um dos melhores para os escritores).

a83ff99f30553ef135f84f6a97a2f98eO mais decepcionante é que o conto que abre o livro é o MELHOR conto que você encontrará ali. A autora Melissa de Sá entrega um texto que se encaixa perfeitamente ao livro. Isso não só te motiva a continuar com as leituras, como a querer saber mais sobre a autora. Mas daí, no meio do livro, a vontade é de deixá-lo no fundo da estante e partir para o próximo.

O conto Erva Daninha, de Melissa de Sá, é bem amarrado. Cada detalhe que é descrito na história não está ali de graça, você sente aquele interesse em saber mais sobre aquele universo. A história se passa na Europa dos tempos das Cruzadas e o personagem principal é um jovem camponês que sai de sua cidade natal para ser um cavaleiro e receber perdão por todos seus pecados ao chegar em Jerusalém. A autora consegue se entender bem com o pensamento da época, o personagem se sente culpado e pecador, bem ao estilo medieval, tudo o que é maravilhoso percorre uma linha tênue entre o divino e o demoníaco.

Ao mesmo tempo, pude perceber o estilo de escrita de Melissa. A repetição de elementos na história farão diferença para a trama, ela brinca com a dúvida e a surpresa. Eu não conheço praticamente nada em termos de literatura, mas o conto da Melissa de Sá tinha uma “coisa” que me lembrou um dos princípios da Gestalt, que é usado muito no design de logomarcas: o “fechamento”.  Ele basicamente diz que você não precisa construir todo um objeto, pode deixar espaços vazios e o cérebro humano será capaz de completá-lo (um dos exemplos que sempre se usa para o conceito de fechamento é a logo da WWF, em que você tem manchas pretas que formam o panda, mas o panda não está ali, você é que o completa). Em suma, isso não me parece uma coisa fácil de fazer, textualmente, mas penso que, com as palavras certas, a autora consegue mostrar os sentimentos dos personagens, suas relações.

0149f7ec3a5e659a9c23424ea1dd079fBem, agora eu preciso falar dos outros contos. O que eu posso dizer é que eu achei interessante que os autores percorreram outros lugares do mundo: são dois contos ambientados na China, um no Japão e o conto de Ana Lúcia Merege pode enganar os desavisados, por se tratar da cultura árabe, mas ele se passa na região da Península Ibérica (é o periodo da dominação árabe na Europa) falarei dele mais adiante*. Os demais são ambientados na Europa mesmo, no que você pode esperar.

94fb3af677b2e597654f5e3062a90821.jpgOs contos de Cordenonsi, Roberto Causo, Eduardo Kasse, Erick Cardoso, Nikelen Witter tiveram um final meio vazio ou apressado. Fica aquela impressão de que não eram exatamente esses os planos dos autores, mas não teve jeito. Pode ser que tenha sido isso mesmo. Eu me lembro que alguns contos dos irmãos Grimm terminam com coisas como “e então eu fui no casamento deles”. Não é isso que acontece no final dos contos dos autores mencionados, mas fica aquela coisa no ar (meio que “oi? como assim?”). O conto de Eduardo Kasse foi, para mim, bem cansativo, com uma ambientação do cenário viking que não acrescenta na história, descrevendo como os personagens dormem, sobre o sacrifício feito antes da batalha, citando que o personagem sente os dedos que perdeu em batalha, e nada disso vai fazer diferença no final. A informação está ali só por estar, não faz diferença. Talvez seja uma questão de gosto pessoal, mas não vejo graça nesses elementos se não fizerem sentido na história. Por exemplo, você tem elementos parecidos com esses no caso dos capítulos do Theon Greyjoy dos livros de George R. R. Martin, mas contribuem para entender, depois, que o personagem terá dificuldade em correr, comer, etc, para entender o quão psicopata é seu antagonista.

No conto A flor vermelha, de  Karen Alvares, eu não consegui identificar o elemento mágico/fantástico, que é a proposta do livro (se você conseguiu, comenta aí). Mas não é um conto de todo ruim ou mal escrito, só não segue a proposta de ter o elemento fantástico, e a passagem do tempo fica, às vezes, confusa, principalmente no fim da história. Mas talvez eu é que seja uma leitora inexperiente.

O grande livro do fogo, de Ana Lúcia Merege, é um conto bem legal, acho que posso compará-lo com uma aventura estilo RPG, em que cada personagem possui virtudes e defeitos, e é por cada coisa dessas que eles acabam entrando nessa “aventura” e obtendo ou não o sucesso.

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Lenora dos leões, de Helena Gomes é um conto que eu não queria ter lido. Eu definitivamente estou com o estômago embrulhado… O que eu posso dizer é que me parece bem-escrito. A descrição de eventos históricos pode ser cansativa para alguns, mas está tudo ali. Só que nesse livro eu não esperava ler algo que tratasse do tema sobre Síndrome de Estocolmo e Lolismo. Não é o tipo de choque que eu procuro em minhas leituras.

Claro, as vezes é importante sair da zona de conforto e algumas pessoas acham que seja importante “quebrar paradigmas sobre o tempo medieval que foi muito floreado por alguns autores na literatura, e…” — sobre isso, o que tenho a dizer é que eu não morri por ter lido o conto, no entanto, toda “volta ao passado” não é feita despretensiosamente, é preciso lembrar que olhamos o passado com nossas experiencias e conceitos contemporâneos (isso vale para todos os contos acima citados e para além deles: todos o textos que foram ou serão lidos). Mesmo que você leia um texto escrito por um autor do passado, você o lerá com seus olhos e mente contemporânea (fica a dica).

64db712c47373779e876a7c4fd52bbbdMais uma coisa que eu acho importante frisar, é que não é um livro infanto-juvenil, ou para adolescentes, principalmente pelos contos A clareira mágica, Sacrifício, A flor vermelha e Lenora dos leõesAcho que os outros contos são mais “livres”, mas esses, em específico, são para um público mais adulto. Acho importante tocar nisso porque, pesquisando sobre os autores, percebi que alguns escrevem para o público mais jovem ou até o público infantil, e, por rondar o tema de fantasia com uma capa colorida, pode acabar dando a ilusão de que seja um livro infanto-juvenil, mas não é.

e78883759d1a2992b0c2c67343d910d2.jpgPor fim, se você se interessa por arte medieval e sobre esse universo, eu gostaria de lhe indicar algumas páginas que tratam do assunto de forma até mesmo lúdica, mas criteriosa. A autora da página Arte Medieval — Iconografia e Simbologia, no Facebook, publica pinturas antigas do período medieval e faz alguns breves comentários sobre elas. Nessa mesma página, há, ainda, um álbum só sobre bestiários (meu favorito). A Historia Medieval / Medieval History / Moyen Age é outra página no Facebook, onde se publicam artigos de blogs ou revistas em diferentes idiomas, todos relacionados à Idade Média.

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*Sobre o conto O grande livro do fogo, ele se ambienta na cultura árabe, os personagens são islãmicos, durante a dominação árabe na Península Ibérica. Al-Andalus, que é o lugar onde eles estão, é o antigo nome da Península no séc. VIII.

uma estrela

Juh

4 comentários em “Medieval: contos de uma era fantástica — Vários autores

  1. Juh, acabei de encontrar sua resenha, e achei-a super bem escrita e ponderada. Obrigada pela leitura e pelas críticas. Se você tiver interesse, gostaria que lesse outras obras minhas, para que talvez tivesse outra impressão sobre minha escrita. Vou mandar um e-mail com pedido de parceria para o blog. 🙂

    Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Karen, mais uma vez, obrigada pelo seu feedback. Eu quero poder ler seus livros ainda esse ano!
      Eu não sou uma dominadora da arte da escrita, minha vida como leitora começou a pouquíssimo tempo, e meu maior incentivo foi o Clube do Livro, nós trocamos nossas experiências e livros nos nossos encontros (uma ideia genial da Jovi). Desde então eu vejo que minha escrita tem melhorado, e não apenas isso, a forma como vejo o mundo. Acredito que todos os autores que leio são chaves para novos mundos, eu as vezes não estou muito preparada para alguns, mas cada mundo visitado é uma experiência válida e acho que só tenho à agradecer a todos os autores por suas histórias!
      Beijos!

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    1. Muito obrigada pelo seu comentário Melissa! 😀
      Eu realmente gostei bastante do seu conto e sua forma de escrita, eu pretendo ler mais das suas histórias (se tudo der certo, ainda em 2018).

      A escrita é verdadeiramente sua arte!

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