Outlander : a viajante do tempo – Diana Gabaldon

Mágica. Às vezes ela acontece. Não sei se já se viu diante de livros que prendem sua atenção e emoções de maneiras tão catárticas e profundas que não há como sairmos incólumes deles. Espero que sim, espero que já tenha te acontecido isso, são experiências únicas. Claro, não é algo que qualquer leitura vá te proporcionar, pelo menos para mim, são raras. “Outlander”  foi uma delas.

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SINOPSE

   Bom, antes de explicá-los o que há de tão especial nesse livro de 800 páginas escrito pela americana Diana Gabaldon, vamos à sinopse, não é mesmo?
O fim da Segunda Guerra traz uma nova esperança para o casamento da enfermeira Claire Randall. Atuante durante o conflito, a inglesa não vê o marido, Frank, por longos 5 anos e, agora que podem se reencontrar, decidem fazê-lo em uma lua de mel pelas Terras Altas da Escócia. Intrigado pelos costumes locais e por possíveis ancestrais que trabalharam no exército inglês há mais de duzentos anos, Frank se mostra profundamente interessado pelos mistérios de uma Escócia perdida no tempo, enquanto Claire não guarda profundo interesse pelo tema.  Após presenciarem um ritual pagão de mulheres em torno de um círculo de pedras, Claire volta ao local e é tragada por forças ocultas que a transportam para duzentos anos no passado. Ela agora está em 1743 e precisa aprender a se virar nesse novo mundo, se quiser sobreviver e voltar à sua época de origem.

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O PROBLEMA DA EXPECTATIVA

   A premissa “viagem no tempo”, “povos antigos” e “magias obscuras” podem atrair um público que deseja experienciar um típico romance histórico, com muitos detalhes sobre os desdobramentos do passado aliados à um toque místico. Se este é o seu caso, já adianto que talvez se decepcione. Claro que Diana não abandona o pano de fundo de sua obra, mas ela decide que o foco dessa escrita será colocado nos personagens e nas relações próprias do contato entre seres humanos. Suas dores, amores, conflitos internos e mesmo psicopatias, tudo isso interessa à autora, mais do que fontes histórias e trechos intermináveis de descrições de cronologia perfeita.

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   Acho muito importante começar falando sobre isso, já que esperar de uma obra ou autor algo que ele não se propôs a fazer, é sempre uma quebra de expectativa muito chata para o leitor. Seria o mesmo que condenar Tolkien pelo seu enfoque na criação do universo de “Senhor dos Anéis” em detrimento do aprofundamento nas ações dos personagens, ou criticar George Martin pelo grande tempo dispendido nas narrações de intrigas políticas em “Guerra dos Tronos”. Cada autor escolhe o coração da sua escrita, e é a maestria que ele colocar nesse enfoque, que tornará sua obra digna de ser lida, ou não.

   Gabaldon escolhe tratar de sentimentos humanos, e acerta em cheio nas escolhas que faz para desnudá-los, criando uma atmosfera muito crível. As escolhas dos personagens fazem sentido, nós compramos cada um deles. Claire, com seu espírito destemido, não é uma “mulher maravilha”, que possui superpoderes. Ela é forte, um verdadeiro mulherão da p*, mas também sente medo, indecisão, como todos nós, seres humanos. Ela não tem todas as respostas, e ser forte também significa saber lidar com a impotência sem desanimar ou cair em desespero. Jamie, um escocês que Claire encontra durante sua aparição inusitada ao passado, é construído de forma curiosa. Um personagem masculino real. Que coisa difícil de se ver! Ele possui características de um verdadeiro personagem feminino de clichês de “capa e espada”. Nunca tinha visto nada parecido antes. Calma, eu explico: lembre-se das construções de donzelas nos livros que já leu. Elas são sensíveis? Normalmente sim. Doces? Sim. Virgens? Sim. São salvas pelas pessoas que amam? Sim. Pois é, Jamie é tudo isso o.O

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ESTEREÓTIPOS E GÊNEROS EM OUTLANDER

   A representatividade feminina nas mais diversas mídias vêm crescendo, apesar da resistência que ainda encontra diante da diminuição histórica e sistemática do “ser mulher”. Em “Outlander – A Viajante do tempo” sentimos claramente que esse tema é uma preocupação cara para a autora. As respostas de Claire, a maneira como ela é construída e busca se firmar como ser humano capaz e relevante, independente do preconceito e violência que permeia o gênero feminino – seja em 1743 ou 1945 – é uma constante em todas as páginas do livro.

   Jamie, o escocês que cruza o caminho de Claire em sua viagem ao passado, é um personagem cativante e sui generis. Diana tem o cuidado de torná-lo apaixonante, mas, ainda assim, não o exime de comportamentos machistas que seriam algo que eu esperaria de um homem criado em uma cultura que concede privilégios ao marido, chefes de clã e filhos homens. No entanto, ele é aberto à novas perspectivas, à desconstruir-se, paulatinamente. Talvez esse fato tenha sido um incômodo para leitores homens: um personagem masculino disposto a abrir mão de sua posição cativa de herói e “macho alfa” para olhar o mundo de uma outra maneira, pelos olhos de uma mulher, talvez. Outro fato curioso sobre a construção da personalidade de Jamie, é o fato de ele possuir uma série de características que, ao longo de anos, foram atribuídas por autores à personagens femininas. Jamie é virgem, Claire não; Jamie é escolhido para se casar, não têm todo o controle sobre sua noiva ou as escolhas que ela tomará quanto à isso; ele é salvo por uma mulher em diversas passagens e, por fim, sofre violências indizíveis que, normalmente, associamos ao gênero feminino. Curioso como Diana mescla características, como ela nos diz tanto através de suas escolhas de roteiro. É como se ela sussurrasse que somos, enfim, todos seres humanos que possuem sentimentos, esperanças, sonhos. Todos sofremos e sentimos dor. Todos podemos assumir posições de protagonismo, independente do gênero que possuirmos.

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LIVRO DE “MULHERZINHA”?

   Preconceitos literários dizem muito sobre nós. Eles podem ser dirigidos à livros mais simples que agradam pré-adolescentes, leitores em formação que estão descobrindo um universo que cabe em páginas e que tem relações com sua vida diária. Diminuir esse tipo de literatura é uma atitude muito intolerante, um esquecimento de quem já fomos um dia: adolescentes. Preconceito com livros escritos por uma mulher com uma protagonista mulher, no entanto, mostram uma faceta ainda mais apodrecida e doente da nossa sociedade, algo que nos contamina desde o nascimento. Brinquedos para meninas, são rosa, brinquedos para meninos, azuis; as meninas são “frágeis demais” para certas profissões; homens não devem demonstrar sentimentos profundos, chorar é coisa de mulher. Essas afirmações estão ao nosso redor, como o ar. Crescemos em uma sociedade que constrói esteriótipos, nos aprisiona neles, sufoca, causa violência e mata milhares de indivíduos, todos os dias. 

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Os livros são uma das mídias pelas quais esse tipo de violência de gênero escoa.

   Denso e profundo, “Outlander” me surpreendeu muito. Eu confesso que essa etiqueta “livros para mulheres”, me afastou da leitura por muito tempo. Li e ouvi diversos homens citando a obra como algo “água com açúcar”, ou “soft porn para menininhas”. Mas não, o livro é mais, muito mais que isso. O sexo é frequente, e narrado com minúcia por Gabaldon, mas ela o faz pelos olhos de Claire. É ela quem dita o rumo do seu olhar pela cena íntima, que, por sua vez, ganha corpo e densidade quando ultrapassa o mero prazer carnal para dar ritmo e movimento às inclinações dos personagens, definir suas ações futuras, dar à eles aspectos de seres humanos quase reais. Não há objetificação, ou apelações. Brilhante Diana. “Outlander” é um livro para “mulherzinhas”, “homenzinhos” e quaisquer que sejam os gêneros. É um livro para seres humanos dispostos a encontrar uma obra que os tocará profundamente e que, quando passarem a última página, permanecerão, ainda, atrelados à leitura por laços invisíveis.

   É impossível parar de ler Outlander. Seja você homem, ou mulher.

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A SÉRIE VALE A PENA?

Cada minuto. Cada minuto assistido valeu a pena para mim.

   Que difícil ver uma série produzida com tanto esmero e carinho, desde a sujeira nas botas dos escoceses, o cuidado com a obra que as deu origem, modificações acertadas e interpretações memoráveis. A ousadia de retratar cenas de violência física e psicológica é inédita para mim em uma série de tv. Confesso ter tido grandes dificuldades para assistir os episódios finais e cenas de estupro que, assim como todas as meadas que formam a trama de “Oultander”, dizem muito sobre o grito de Diana contra o patriarcado e suas formas de violência obscuras e doentias. Controversas e difíceis de filmar e escrever, acredito que tenham sido feitas de uma forma bastante crua, como o são na vida. Podem também ter incomodado um público masculino desacostumado à outros papéis que o cinema não evoca com muita frequência.

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COMO MEDUSA

   A verdade é que cada um de nós é tocado de formas diferentes, somos seres únicos. Nossas experiências nos formam e, por isso, somos impactados de maneiras diversas pelas mais diferentes obras, mas, o fato de elas nos tocarem, já diz algo sobre as mesmas. Quando não é possível se tornar indiferente à algo, quando ele te faz refletir e pensar na sua vida real, acredito que o autor tenha conseguido, como o olhar da medusa, nos atingir e petrificar. Mudamos, e isso, para mim, é mágico.

   Não é todo dia que eu fecho um livro que me fez rir, chorar e perder horas de sono só para “acabar mais um capítulo”. É difícil escrever sobre as nossas experiências de livros assim! E magia não é algo que acontece com tanta frequência, não é mesmo?

   Eu deixo meu convite, para que você se dispa dos preconceitos que tiver, e dê uma chance à leitura de “Outlander – A viajante do tempo”.

   Vai valer a pena.

five stars

Jovi

 

 

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