História do Olho — Georges Bataille [+18]

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Edição da Cosac Naify.

A História do Olho é uma obra estranha.” Assim começa o artigo Visões da Carne Infinita, escrito por Tiago Ribeiro e Tania Nunes. Talvez não haja afirmação mais acertada.  Reminiscências de uma terapia bem-sucedida, esse primeiro livro do escritor francês é uma obra deveras estranha: ovos que significam olhos, que, por sua vez, podem ser olhos humanos, olhos-luas, ou olhos-de-cus.

Sim, isso mesmo.

É uma loucura diante da qual mesmo a surrealidade nascida de Breton parece desconcertada.

Está preparado?

O OLHO EM CENA

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Georges Bataille.

Nos anos idos de 1928, o então funcionário público Georges Bataille exorcizava seus demônios publicando um livro que precedia um longo período de terapia psiquiátrica: A História do Olho.

Ao leitor desavisado, tal livro pode chocar imensamente. Ao mais avisado também. Com uma sinopse que falha em emitir as dimensões obscuras do livro e sua linguagem, poderíamos dizer se tratar das peripécias sádicas, brutais e irracionais de dois jovens, um deles o narrador, em que sonho e a crueza da realidade se sobrepõe de forma desconcertante.

Tendo por início aventuras sexuais pouco comuns na praia, o narrador e Simone, sua parceira, dão início a um texto poético e cru que utiliza metáforas e metonímias para situar o leitor nas mais descabidas cenas vindas do inconsciente de Bataille.

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Foto de Hans Bellmer para A História do Olho.

O olho, aqui, é não apenas o olho ligado ao ato quase erótico de ver o mundo e seus prazeres, mas, também, um olho-ovo, esférico e branco, que Simone insiste em defecar. Também se afigura como olho-lua, redondo, e que trás junto de si uma tempestade selvagem que inflama os ânimos dos personagens. Também nos aparece como olho-testículo, órgão ingerido e inserido em Simone durante um evento de touradas em Servilha. Além, ainda, dos olhos-de-cus, palavra repetida à exaustão ao longo do livro.

As situações são fantasiosas, irreais e impensáveis, contrastando, no entanto, com a dureza de como são oferecidas ao leitor: uma forma realista, descritiva e sem emoção. Enquanto o clima de fantasia dá ares surreais e difusos, a crueza dos relatos nos aprisiona em dois “agoras” que se mesclam e perturbam. Nossos próprios olhos se distorcem ao travar contato com a obra de Bataille. O erótico, aqui, não tem nada de sensual. Ele é repulsivo e intocável, pela sua própria condição absurda. Por vezes, tive o ímpeto de não prosseguir a leitura.

A edição da Cosac Naify traz um prólogo interessante da pesquisadora Eliane Robert Moraes, bem como escritos de Roland Barthes e o complemento Reminiscências, anexo utilizado pelo autor para explicar as origens autobiográficas presentes na obra. Lá, descobrimos que o assombro do olho remonta raízes na figura do pai sifilítico de Bataille, que, privado do movimento das pernas e da visão, revirava os olhos ao urinar-se. Os líquidos, por sua vez, também contribuem para a poética escatológica da obra: sangue, urina e tempestade formam imagens sexuais desagradáveis, que beiram a autodestruição.

“Nasci de um pai sifilítico, que me concebeu quando já era cego, e que pouco tempo depois de meu nascimento ficou paralisado por sua sinistra enfermidade. Ao contrário da maioria dos meninos que se apaixonam por sua mãe, eu estava apaixonado por meu pai. À sua cegueira e sua paralisia estava ligado outro fato: não podia urinar como os demais no reservado, urinava em seu assento, em um pequeno recipiente e, devido à frequente urgência, não se importava de fazê-lo em minha frente, debaixo de uma colcha: como era cego, a colocava, quase sempre, ao contrário. O mais estranho, sem dúvida, era certamente sua forma de “olhar” quando urinava. Como não via nada, sua pupila perdia-se no vazio, sob sua pálpebra, e isso acontecia, em particular, quando mijava. Tinha olhos muito grandes, sempre muito abertos, em um rosto aquilino, e seus grandes olhos se punham quase brancos quando urinava, com uma expressão idiota de abandono e fuga frente a um mundo que só ele podia ver e que e que lhe produzia um riso ausente.” — Georges Bataille

A MÁSCARA: LIGAÇÕES POSSÍVEIS ENTRE BATAILLE E WESTWORLD

“Escrevo para apagar meu nome.”  Georges Bataille

Com essa afirmação do autor, investigamos o fato de Bataille ter usado um pseudônimo para publicar seu livro. A despeito do fato mais prático, preservar seu emprego público em uma biblioteca, essa “máscara” parece revelar mais do que se digna a esconder. Sob o espectro de Lord Auch, a investigação do passado em roupagem absurda e erótica parece possível. Como esclarece Eliane Robert Moraes:

“Para Bataille, as máscaras representam ‘uma obscura encarnação do caos’; são formas ‘inorgânicas’, que se impõem aos rostos, não para ocultá-los, mas para acrescentar-lhes um sentimento profundo.” — Eliane Robert Moraes

Pensando livremente a respeito da série televisiva da HBO Westworld, tracei alguns paralelos curiosos que não têm nenhuma pretensão de veracidade ou relevância. Assim como para Bataille, as “máscaras” parecem agir com profunda relevância na série.

O roteiro nos apresenta um lugar, um parque, construído em um futuro não tão distante, onde robôs hiper-realistas são utilizados como entretenimento a milionários que pagam cerca de $40.000 para passar um dia no lugar. Durante esse período, podem se valer dos robôs como quiserem: as formas mais violentas são permitidas, tais como matar, estuprar ou torturar de forma sádica. Curiosamente, o aspecto do parque é construído à semelhança do faroeste americano e seus visitantes humanos (assim como os robôs, é claro), utilizam vestimentas e objetos relativos à época.

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Westworld , HBO.

Essa “máscara de realidade”, que suspende códigos morais e permite que humanos pratiquem com robôs atrocidades impensadas na vida em sociedade, tem ligações, ao meu ver particular, com  a visão de máscara colocada por Bataille. Assim como este dá vazão aos seus sentimentos inconscientes mais profanos e desestabilizantes por meio de um nome vazio, que é a máscara de Lord Auch, os humanos em Westworld se vestem de personagens, fantasiam-se para que a brutalidade e a violência sejam desvinculadas do seu eu real.

“[…] assim como a literatura, a máscara do pseudônimo veio a fornecer um ‘espelho’ capaz de projetar e multiplicar as terríveis experiências do autor.” — Eliane Robert Moraes

Continuando com o pensamento da pesquisadora Eliane, as máscaras “representam [para Bataille] uma obscura encarnação do caos”. Sejam os comportamentos animalescos de humanos com seres que consideram “inferiores” aos seus pares na série da HBO, ou a vergonha em dar vazão aos pensamentos e sensações sádicas em A História do Olho, a máscara parece se afigurar como uma lente difusa que nubla nossa visão e nos impede de encarar o que tememos em nós mesmos.

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Westworld, HBO.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se você é um leitor que está em busca de uma novela erótica comum, eu sugiro que não se aventure pelas páginas de A História do Olho. O livro é incômodo, confuso e de uma fantasia que engole as bases sólidas às quais estamos acostumados a pisar. É um livro que nos intriga e nos faz refletir acerca de diversas realidades, mas, mesmo assim, é indigesto. Claro que o entendimento e alcance dependem dos conhecimentos pregressos do leitor. Para mim, foi uma experiência sui generis, com sentimentos conflitantes, que oscilaram entre interesse e repulsa.

Como foi a sua? Conta aí nos comentários!

estr

Jovi

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