Meu apetite por destruição, sexo, drogas e Guns N’ Roses – Steven Adler

“Por toda a minha vida miserável, não há um amigo, um membro da família ou uma oportunidade fantástica que eu não tenha colocado em um liquidificador e mutilado.” – Steven Adler

capa 2.jpgEsta consideração dramática e pessimista está na primeira página da autobiografia do baterista que fundou uma das bandas mais populares que se tem notícia: o Guns N’ Roses. O livro de Steven Adler é um misto estranho de informalidades e frases que, apesar de não tão bem escritas, são viscerais. Elas parecem ter, assim como o autor, uma necessidade premente de atenção e amor.

Mas como, com fama, dinheiro e os sonhos de todo músico realizado, Steven foi capaz de se sentir tão miserável a ponto de declarar isto nas primeiras linhas de seu livro?

Aumenta o som e bora descobrir.

 

“Se você quer ser um astro do rock, jogar Super Bowl ou estudar em Harvard, diga isso em voz alta e acredite nisso. É isso. Mas você tem que ter uma fé 100% inabalável no que está dizendo. É simples assim. Eu fiz isso, o cara que está me ajudando a escrever esse livro fez isso e nós dois conhecemos pessoas que também fizeram. Astro do rock, Harvard, Super Bowl – acredite e você chega lá.” – Steven Adler.

steven-adler-101Não tenho como começar esta resenha sem comunicar ao leitor minha proximidade com o tema deste livro. Desde os 12 anos, no começo da busca identitária que todos temos ao transitar da infância para a adolescência, eu conheci o Guns N’ Roses. Inegável era que havia algo de incrível naquele primeiro álbum feito por um bando de americanos descabelados e de olhos vermelhos. O famigerado Appetite for Destruction traz uma crueza nascida de relações familiares falidas e uma vivência nas ruas que o mercado de Hard Rock há muito não via, viciado que estava nos laquês pomposos e nas construção de personas/ músicos que fossem construídos e mais “controláveis”.

Claro, estas coisas não ficaram claras para a criança de 12 anos que eu era na época, mas me chegam agora, enquanto faço esta análise do livro de Steven Adler para vocês. Essa crueza está, também ela, presente no livro. E assusta, por vezes. O tom ganha colorações desesperadas e incomoda pelo sexismo embutido em diversas passagens.

Steven narra sua infância coberta de violência, desde a mudança dos avós para os Estados Unidos afim de fugir do Holocausto, até agressões domésticas sofridas por sua mãe. Ele não poupa detalhes sobre como reagiu ao descontrole familiar: quebrando tudo e tornando o clima ainda mais insuportável para seus professores, pais e amigos.

A fúria migra para a música, mas em uma época em que drogas pesadas como heroína e crack começavam a se instalar na rotina de jovens americanos. Com Steven não foi diferente. Acompanhamos suas narrativas, curiosamente ainda imaturas, sobre o abuso de drogas e a forma como se esforçava para manter a virilidade e o número de parceiras sexuais aumentando.

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Aliás, incomoda sobremaneira a forma como garotas são narradas no livro: meros objetos que são apreciados pela forma física e que servem a um fim sexual bem definido. A cena da sunset street à época em que o Guns N’ Roses reinava absoluto era muito insalubre para mulheres. Me peguei muitas vezes fechando o livro e pensando como seria para uma musicista se colocar ali, achar seu discurso sem que fosse rodeada destes estereótipos sexuais limitadores e violentos. Se alguém conhecer biografias de mulheres que viveram nesta época de ouro do Hard Rock, postem ai os comentários!

Eu realmente gostaria de ler mais sobre esse lugar de fala tão suprimido. Quase parei de ler o livro de Adler várias vezes, devido ao choque mesmo.

“Parecia que quanto mais loucos fossem os espetáculos a que assistíamos maior era a fome que tínhamos por algo mais selvagem e emoções mais perversas. Nada nos chocava mais. Nossos nervos estavam amortecidos a um ponto em que ficávamos ali assistindo a um ménage à trois com uma garota atendendo a todos os caprichos doentes, só para ser maltratada ao ponto de ser quase um estupro, e a gente pensava: tanto faz, próximo.” – Steven Adler

174964-383x479Mas voltando ao livro de Adler. Ele comenta sobre  a relação atual com os ex-companheiros de banda, sua relação de amor e ódio com cada um deles, bem como as decepções de ter sido expulso de forma covarde enquanto se encontrava doente e completamente imerso no abuso de entorpecentes. As passagens em que o baterista comenta os possíveis estratagemas articulados pelo pessoal de gravadoras e empresários para ludibriá-lo e roubar seus direitos como músico e compositor são bem desagradáveis. Claro, é um ponto de vista enviesado, você está lendo a partir da ótica de Adler, mas nunca tinha visto o panorama de como a desestruturação do Guns N’ Roses começou por este viés, o que foi triste mas muito interessante.

O livro inteiro parece uma conversa muito informal, com devaneios que interrompem em alguns momentos a linha narrativa, mas você se acostuma à esta linguagem. Parece um desabafo que marinou por anos e que sai aos jorros, uma mea culpa e um pedido desesperado por reconhecimento e amor. A vida do músico, me baseando no que ele mesmo conta na biografia, parece ter sido assim, uma busca desesperada por laços afetivos que nunca duravam o suficiente.

“Eu tinha um grande caroço inchado no braço, resultado do meu abuso com agulhas sujas. O médico cortou com um bisturi e saiu uma gosma verde. As enfermeiras tiveram que retirar a pessoa que estava na cama ao lado, porque aquilo cheirava muito mal. Depois, aconteceu algo dentro de mim e eu apaguei.”- Steven Adler

As tentativas de tapar os buracos emocionais vieram com uma carência gigantesca que foi transferida para as relações de amizade na banda e para as drogas. As passagens a respeito de overdoses e abusos com entorpecentes são duras de ler, muito pesadas. Steven já teve picos que o levou a bater a cabeça descontroladamente no chão a ponto de perder dentes e precisar de uma cirurgia plástica para o nariz, que ficou estraçalhado; já acordou depois de um coma no hospital; já esteve afundado em tapetes  com bitucas e colheres queimando pedras de crack enquanto sua esposa saía de casa sem saber como lidar com o zumbi que seu marido havia se tornado. São passagens muito pesadas.

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“Antes que você perceba, a bebida e as drogas cavam seu lugar e substituem o barato natural. Nesse ponto, elas tornam impossível curtir qualquer tipo de alegria, porque você está destruído, morto por dentro.” – Steven Adler

Para entusiastas da banda, é uma leitura que tem um plus a mais, ela já começa com aquele sentimento positivo e curioso de fã. Para aqueles que não conhecem, é uma biografia interessante, que precisava de uma revisão mais cuidadosa de português, mas que abre as cortinas do submundo da sunset street e do rol de vícios que abocanhou muitos dos músicos que viveram perigosamente seus sonhos nos anos idos da década de 1980/90.

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Jovi

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