O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

“Aqueles que não se lembram do passado, estão condenados a repeti-lo” – George Santayana

capa
Livro editado pela Companhia das Letras, 2015.

Gigantes enterrados são uma constante nas obras de Ishiguro: um mistério à espreita, sendo descoberto a cada nova retirada de terra que se faz, página a página. Nesta história, o que temos é mais um exemplar da ousadia do autor em incomoda-nos, em tirar-nos do lugar comum, desta vez, tendo por protagonista a memória coletiva. E as consequências de perdê-la.

SINOPSE

“Mas a senhora tem mesmo certeza de que deseja ficar livre dessa névoa, boa senhora? Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?” – O Gigante Enterrado, p.196.

A história se dá em uma época pós-arturiana decadente, onde os garbosos cavaleiros da távola redonda são agora senis e solitários caminhantes em busca de redenção para cumprir tarefas incompletas. É neste cenário que somos apresentado ao casal Axl e Beatrice, idosos que moram em uma ilha afastada e atingida, assim como todo o resto do planeta,  por uma névoa misteriosa que parece ter o poder de dissolver memórias, mesmo as mais recentes. Não é possível se lembrar de grandes feitos do passado, nem mesmo do rosto da garotinha que se perdeu na floresta no dia anterior. Todas as lembranças parecem evaporar, simplesmente.

No entanto, ao olhar para a mulher adormecida ao seu lado, Axl tem a estranha sensação de que precisa reencontrar o filho que partiu para uma ilha distante tempos atrás. Com isso, dá início a uma busca que conduzirá o leitor à uma série de indagações sobre perdão, medo do desconhecido, amor, e os dois lados que a memória perfeita podem apresentar.

O QUE É O GIGANTE ENTERRADO?

“Eu estava pensando, princesa. Será que o nosso amor teria se fortalecido tanto com o passar dos anos se a névoa não tivesse nos roubado as nossas lembranças como roubou? Talvez ela tenha permitido que velhas feridas cicatrizassem.” – O Gigante Enterrado, p. 395

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Katherine Pyle, 1932.

O autor explica, através de metáforas, toda a dimensão do “gigante”, e os motivos pelos quais ele se manteve enterrado, relacionando-o ao tamanho dos arrependimentos e memórias esquecidas que guardamos dentro de nós. Se os personagens da obra vivem suas vidas em um ostracismo absoluto e uma amnésia profunda, me pergunto o quanto nós também não nos conduzimos à um esquecimento galopante nos dias de hoje, reproduzindo velhos preconceitos e seguindo caminhos que o passado já revelou perigosos e retrógrados.

Várias passagens do livro nos impelem a fazer paralelos com a nossa realidade, seja quando padres selecionam partes da verdade para construir memórias mais palatáveis para si ou quando uma vila inteira age como animais frente ao diferente, ao desconhecido, buscando atingi-lo ou mesmo matar.

Ao desenterrar o “gigante”, os personagens ainda terão de enfrentar a figura dúbia do barqueiro que, supostamente, só atravessa juntos para uma ilha distante, casais que podem provar que se amam verdadeiramente.  Entretanto, como prová-lo se não há nenhuma memória restante?

Me pergunto o quanto as pautas levantadas pela obra são atuais, o quanto nós mesmos não nos colocamos no papel de animais selvagens frente ao que não concordamos ou desconhecemos, o quanto criamos meias verdades por termos lembranças dolorosas demais para que sejam desenterradas.

No entanto, se, coletivamente, nos condenamos ao esquecimento do que já foi experienciado, quanto estaremos fadados a reproduzir das atitudes erradas de antes?

PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS

“[…] suponho que o que eu acabei de contar faria alguns pensarem que o nosso amor  é falho e vacilante. Mas Deus conhece o lento caminhar do amor de um casal de velhos e entende que sombras escuras fazem parte do caminho como um todo” – O Gigante Enterrado, p.391

O livro é construído como uma fábula infantil, por vezes. A linguagem evita ornamentos pomposos, mas tem uma característica formal envolta num tom de inocência, muito diversa do realismo dos outros livros do autor.

É, sem dúvida, um livro melancólico, um livro onde não se pode acreditar cegamente nos personagens, já que ao perderem suas lembranças, recriam de forma fantástica os acontecimentos para si mesmos, o que causa curiosidade no leitor. O ambiente de sonho e surrealidade também foge ao clichê quando mesclado com as alegorias ricas que Ishiguro nos propõe.

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Kazuo Ishiguro.

No entanto, diferente do que ocorre no premiado “Não me abandone jamais”, o mistério a ser descoberto não nos acusa tão diretamente. Ele é mais suave, mais particular, mais introspectivo, causando, desta forma, um impacto menor do que o que se tem quando terminamos o outro livro.

Mas, embora esse impacto seja suavizado, e talvez a linguagem e a própria estrutura de fábula contribuam para isso, me vi pensando longamente sobre minha própria vida e escolhas quando virei a última página. Mais um livro de Ishiguro que me levou às lagrimas com toda a sensibilidade e delicadeza que ele emprega de um jeito tão único. Não é um livro diante do qual você se apaixonará imediatamente, mas se acostumará com sua escrita curiosa, com suas particularidades, até que o momento de dizer adeus à estes personagens tenha se tornado doloroso e você queira passar mais tempo com eles. Acho que concordo com a afirmação de Neil Gaiman quando este diz:

“Eu suspeito que minha inabilidade para me apaixonar por ele [livro] o quanto eu gostaria, vem da minha convicção de que é uma alegoria esperando como um ogro na névoa, nos dizendo que não importa quão bem nós amamos, não importa quão profundamente, sempre seremos falíveis e humanos […]”

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Jovi

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