Um Defeito de Cor — Ana Maria Gonçalves

“A história da nossa população negra é tragicamente marcada pela violência física e simbólica, pela negação de identidades. Seu espaço geográfico e social é a periferia dos mocambos e quilombos, a favela, onde falta tudo, espaços de dor, sofrimento e exclusão, onde quer que o negro se encontre.” — Sandra Maria Santos

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Muitas e muitas páginas é o que temos em Um Defeito de Cor. Mas não só. O tamanho do livro se justifica pelo ambicioso trabalho da autora brasileira Ana Maria Gonçalves, que relata, da infância à velhice, a vida da personagem ficcional Kehinde, elucidando-nos, em paralelo, acerca da obscuridade de um dos períodos mais vergonhosos da história humana: a escravidão.

MAIS QUE UM LIVRO

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Cicatrizes do açoite.

Em um depoimento ao leitor, Ana explica como o livro tomou forma para ela, como nasceu do encontro fortuito com uma série de documentos assinados por uma possível escrava africana que viveu no Brasil durante o século XIX. Mesclando pesquisa histórica profunda a uma ficção convincente, a autora dá vida a uma obra de fôlego, como eu jamais havia encontrado, seja na literatura brasileira ou mundial.

A história negra, tão habituada a sobreviver da prosa oral entre famílias e clãs, raramente é documentada e construída em textos literários com o mesmo engajamento com o qual são eternizados assuntos diversos. Não se costuma observar a narrativa pelas periferias, pelas bordas. Acostumamo-nos com a verdade dos centros de poder privilegiados. É essa prática viciada que Um Defeito de Cor rompe.

SINOPSE 

“Eu acho que a história da escravidão no Brasil e suas consequências posteriores, como o racismo, a exclusão social, financeira, econômica, política, dos herdeiros do estigma da escravidão, ainda está para ser contada” — Ana Maria Gonçalves, em entrevista concedida a Vinícius Portella.

A história se passa em um navio, que leva uma senhora negra de volta ao Brasil. Muito idosa, cega e à beira da morte, Kehinde, como se chama a personagem, tenta expurgar, através do registro de suas memórias, a culpa de ter perdido um filho  após um desencontro cruel. Ela escreve para ele, Omotunde, tentando contar-lhe todas as experiências e sensações vividas na quase uma centena de anos que compõem sua vida.

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Anúncio repugnante de venda e compra de escravos no Brasil.

Em primeira pessoa, ouvimos um relato de dor, companheirismo, busca identitária, diásporas e força, que começa ainda na infância, em Savalu, e perpassa toda a adolescência, vida adulta, até atracar na velhice. Enquanto lemos, temos, nós mesmos, um encontro com cada uma das facetas deformadas da escravidão. Nos vemos chocados, envergonhados e transformados no contato com o outro.

Kehinde é mulher, negra, filha de Oxum, empresária, mãe, esposa, amiga, um ser humano imerso em uma paleta cinzenta que, justamente por isso, faz com que acreditemos na possibilidade de sua existência e nos choquemos ainda mais com a brutalidade que o destino a impõe. Destino esse guiado pelas mãos brancas dos senhores de escravos.

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Escravas no Brasil.

ESCRAVIDÃO

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Escravo negro, Rio de Janeiro, 1864.

A despeito de ouvirmos que Rui Barbosa fez pó dos documentos acerca da escravidão, Ana conta em suas diversas entrevistas que o material para se pesquisar sobre o assunto é muito rico, vasto. Há muito para ser dito ainda, e foi imersa em uma série desses materiais que a autora construiu Um Defeito de Cor.

Ao comprarmos a teoria margarina de que o racismo no Brasil é um comportamento do passado, já que, afinal, somos o país do futebol, onde o rei é negro, somos miscigenados e etc, mascaramos a cruel realidade da população preta que sofre diariamente uma exclusão sem data para ser abolida. As cicatrizes advindas do processo escravocrata são recentes e, por conseguinte, bem visíveis na nossa pele, apesar de lutarmos para ignorar sua existência.

Ao longo da leitura, temos a apresentação de uma escravidão dura, nada cinematográfica, mas sim cruel e real. A autora pesquisa, em documentos e revistas de época, indícios de como os negros eram tratados pelos senhores de escravos no Brasil, como sua identidade era negada e como sua vida e morte era apenas um jogo de dados, que só a brancos era permitido jogar. Em uma das muitas cenas impactantes do livro, a sinhá do engenho no qual Kehinde vivia manda cegar uma escrava por ciúmes de sabê-la amante do marido, o “sinhô” José Carlos:

“[…] mandou que os homens segurassem a Verenciana com toda a força, arrancou o lenço da cabeça dela, agarrou firme nos cabelos, enfiou a faca perto de um dos olhos. Enquanto o sangue espirrava longe, a sinhá dizia que olhos daquela cor, esverdeados, não combinavam com preto, e fazia a faca rasgar a carne até contornar por completo o olho, quando então enfiou os dedos por dentro do corte, agarrou a bola que formava o olho e puxou, deixando um buraco no lugar.” — Um Defeito de Cor, p. 106.

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Casal liberto.

Há ainda o sofrimento de ser mãe na condição de pertencer a outro ser humano, assim como os filhos, que já nasciam escravos. A dor de descobrir o que é a beleza valorizada, o corpo e a sexualidade em um ambiente tão hostil, que o amor era visto como luxo efêmero, já que eram os senhores e sinhás que decidiam sobre se aferiam validade ou não às uniões. A difícil realidade de entender outros clãs, misturados na chegada em terras brasileiras, bem como a situação particular das mulheres, objetos de carne para satisfazer ao prazer do homem branco, também são pontos presentes na escrita de Ana Maria Gonçalves:

“[…] o sinhô José Carlos me derrubou na esteira, com um tapa no rosto, e depois pulou em cima de mim com um membro já duro e escapando pela abertura da calça, que ele nem se deu trabalho de tirar” — Um Defeito de Cor, p. 171.

FEMINISMOS E SORORIDADE

“O romance Um Defeito de Cor trata da escravização, dor, racismo, injustiças e opressão. Mas, acima de tudo, é um texto sobre mulheres, uma poética feminista e negra. Trata de mulheres que trazem à tona uma faceta nova da escravização, seres mágicos, arrancadas de seus lugares. São feiticeiras, benzedeiras, guerreiras, que vão inscrevendo com a tinta negra de seus corpos, ou com o vermelho do sangue derramado pelos seus, outra história, desconhecida e não reconhecida como valorosa ou digna de atenção ou de definição.” — Sandra Maria Santos

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Mãe escrava carrega seu filho nas costas durante o trabalho. Bahia, 1884.

Em muitos livros, filmes e quadrinhos, alguns estereótipos femininos são secularmente propagados, tais como a relevância de a personagem feminina ser medida com relação à sua contraparte masculina e a inimizade entre mulheres. Ana Maria quebra esse padrão ao apresentar uma série gigantesca de personagens femininas que se amparam nos mais diversos momentos, evoluem juntas e partilham dores semelhantes. Há romance em Um Defeito de Cor, mas ele não define quem a personagem principal é, nem mesmo a maternidade a define. De espírito livre, Kehinde é uma empresária nata, fato que a salvou de muitos apuros.

A questão do amparo e força de mulheres é um ponto extremamente presente no livro. Das mais variadas idades, a velhice e sabedoria que acompanha a experiência dos mais velhos é brindada e celebrada de uma forma muito bonita. A autora mostra a mulher negra por um ângulo que eu gostaria de ver explorado em mais obras. Espero que ela se engaje na produção de mais material com essa temática.

MINHA EXPERIÊNCIA COM O LIVRO

O livro é uma epopeia de quase mil páginas, então é preciso se preparar para passar um tempo considerável imerso na história de Kehinde. O começo é bastante dinâmico, você vira as páginas sem sentir, mas, lá pelo meio da leitura, meu ritmo caiu consideravelmente.

Um dos pontos fortes da obra de Ana Maria é também uma das coisas que me fez desanimar um pouco diante da leitura: a enormidade de informações históricas contidas na narração da personagem. Em meio ao fio narrativo condutor, temos ponderações de Kehinde sobre a situação política e econômica de países africanos, França, Inglaterra e Brasil. Vários personagens reais são adicionados à trama, vivem nela por dez ou quinze páginas, para depois desaparecerem sem maiores delongas.

Apesar de saber que essas são características que dão mais veracidade à forma de contar proposta pela autora, um relato que se pretende oral e em primeira pessoa, eu me vi desviada tantas vezes da trama principal, que meu interesse pelo livro caía e voltava como um iô-iô. Fiquei praticamente um ano inteiro lendo Um Defeito de Cor, enquanto lia outros livros quase igualmente extensos em semanas. Essas incursões históricas por vezes se alongam demais, e, apesar de reconhecer a validade delas como contribuição rica na literatura afrobrasileira, como leitora eu me senti meio perdida em dados momentos.

Entretanto, a sensação predominante que nos acomete no fim é a de uma grandiosidade ímpar. Por mais Kehindes que empoderem a mulher negra, falem abertamente das chagas do racismo, desloquem o discurso do caminho cegamente branco, masculino e europeizado que ele se encontra, para dar lugar a formas outras de contação. Que a dor da exclusão possa ser real também para nós, que nos tire as vendas para deslocar o lugar do negro das periferias rumo a uma posição de protagonismo de sua própria identidade e história.

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Leilão de escravos vindos da África.

estrelas

Jovi

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