Meu Pé de Laranja Lima — José Mauro de Vasconcelos

Ganhei esse livro em um encontro do Clube do Livro e, na primeira página, minha querida amiga e amante da literatura brasileira, Kah, teve a audácia de escrever a seguinte dedicatória:

“Este é com certeza o típico livro que você não deve e nem pode julgar pela capa, e muito menos pelo título… Este é um livro que vai mexer com seus sentimentos e apurar ainda mais a sua sensibilidade. Gostaria, enfim, de lhe propor um desafio: não chorar em nenhum momento do livro (uma coisa realmente impossível de ser feita)! Espero o resultado, heim?” (Kah)

Como pode me desafiar a não chorar!? 

Eu consegui manter o livro seco, mas não meus olhos…

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Garotos da Ladeira – 1930 | Eliseu Visconti

José Mauro de Vasconcelos conta, em “Meu Pé de Laranja Lima”, uma história sobre Zezé, um menino imaginativo, um pouco hiperativo, levado, de família pobre, bem pobre. Logo no início do livro você já se ambienta da situação familiar de Zezé e de suas relações com os irmãos. São cinco filhos: Jandira, Glória, Totoca, Zezé e Luis (caçula). Os cenários e as situações descritos no livro me fizeram pensar nas paisagens do pintor Eliseu Visconti.

É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, e sim, ele carrega muitos assuntos sobre a infância, mas não é um livro “infantil” (nesse sentido de inspirar a brincadeiras e bons exemplos). É uma história de dor. A situação familiar de Zezé não é boa, seu pai está desempregado e a mãe, para poder sustentar a casa, trabalha por muitas horas. O desgaste emocional dos dois é muito grande. Você se depara com Zezé e seu irmão, Totoca, tendo de sair pela rua para engraxar sapatos, ou com Zezé andando descalço pela estrada até a escola, para não gastar o único sapato que tinha…

Eu compararia Zezé com a descrição de Dorothy em “O mágico de Oz” de L. Frank Baum: em meio à terra cinzenta do Kansas, Dorothy era um sopro de vida, uma criatura colorida em um mundo preto e branco. Zezé é um ponto de afetação, ele tira o estado normal e natural das coisas naquele ambiente. Mas ele não é exatamente como a doce Dorothy em todos os aspectos. Muito peralta, vive aprontando coisas. Ele acredita, por conta dos parentes, que tem um diabinho vivendo em sua cabeça.

É como um estigma. Ele realmente acredita que não é uma pessoa boa. Mas, com o decorrer da história, é possível perceber que Zezé não é um menino malvado, apenas, talvez, desorientado (!?). Ele é muito inteligente, mas não tem um adulto que lhe dê um bom direcionamento e você percebe isso devido à sua mudança quando começa a frequentar a escola.

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Zezé e Minguinho. Ilustração da artista SatKyoyama.

As brincadeiras de Zezé com o irmão caçula me fizeram recordar da minha própria infância. Imaginar que existe um zoológico inteiro no pequeno quintal de casa, ou que um galho de árvore pode ser um cavalo. Ter uma árvore como sua melhor amiga.

Me fez também refletir sobre a infância de meus avôs e avós, cuja situação deve ter sido bem próxima da vivida pelo personagem.

No entanto, a história dele não é só de boas brincadeiras e traquinagens, como você pode ter percebido pelo começo da resenha, e o livro te pega nisso. Como um bom drama, ele te faz apaixonar-se pelos personagens e te tira o chão…

Pra você ter uma ideia, na primeira página do livro, vem escrito assim:

“História de um meninozinho que um dia descobriu a dor…”

Pequenos detalhes que passam despercebidos… Poxa, o aviso estava na primeira página e não vi! É quando você pensa que a vida de Zezé poderá ter um sopro de esperança, quando ele descobre a Ternura… Tarde demais. Eu não posso me delongar mais nessa resenha, porque corro o risco de contar muito da história.

Recomendo essa leitura, sim, mas para aqueles que a possam receber de braços abertos. Nunca se lê por obrigação.

Vale lembrar que esse drama é inspiração para diversos artistas (como essa belas ilusração de SatKyoyama). Foi adaptado para o cinema duas vezes (1970 e 2012), além de telenovelas, quadrinhos (em uma versão sul-coreana) e até música.

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Quadrinho sul-coreano da história.

estrelas

JULIA

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