Estação Perdido — China Miéville

“Eu realmente quis mostrar como seriam as relações trabalhistas num universo fantástico. Outra coisa que sempre me incomodou é que, na literatura de fantasia, muitas vezes o racismo não é só um preconceito  é uma verdade ontológica. Raças não humanas se comportam de um jeito totalmente estereotipado. Mas não vejo por que um estereótipo racista deveria ser mais verdadeiro nesse tipo de mundo do que no nosso.”  China Miéville, em entrevista publicada pelo jornal Folha de São Paulo.

Embarcar em uma aventura de dois meses com a leitura de Estação Perdido foi uma experiência, digamos, inusitada.

Se, ao seu turno, a distopia fantástica weird de Miéville apresenta um universo próprio, com engrenagens particulares e raças alienígenas insetoides, por outro, revela uma assombrosa verdade sobre nossos vícios como sociedade, nosso lado feio, aquele que escondemos  por trás de metáforas e meias desculpas.

Fantasia que assusta por apresentar um portal direto para a realidade.

E aí, topa tomar um café comigo em Nova Crobuzon?

APELO AO GROTESCO: UMA CIDADE-PERSONAGEMchina

O principal personagem desse romance político, editado pela Boitempo, é a cidade de Nova Crobuzon. Nada convidativa, parece que se apresenta ao leitor enquanto seguimos uma viagem malcheiorosa de barco. Logo em suas primeiras linhas, já entendemos a tônica da narrativa: o autor não poupará adjetivos escatológicos e comparações incômodas com doenças e odores para auxiliar o leitor à construir imagens mentais. Cuspes, palavrões e um ambiente hostil e corruptivo vão permear todas as mais de 600 páginas e, indubitavelmente, não deixam espaço para se pensar em começos, meios ou finais felizes.

“Despontavam no ar como dedos gordos, como punhos, como cotocos de membros decepados acenando freneticamente acima de inchaços das casas mais baixas. As toneladas de concreto e piche que constituíam a cidade cobriam uma geografia antiga, outeiros, montes, bulevares e bordas da Colina Vaudois, do Ladomosca, da Colina da Bandeira e do Outeiro de São Falastrão, cortiços se derramavam como seixos.” — Estação Perdido, China Miéville.

Formado em Antropologia Social pela Universidade de Cambridge, doutor em Marxismo e Direito pela London School of Economics e professor de Escrita Criativa da Warwick University. A biografia do autor demonstra uma ligação profunda com políticas de esquerda e luta de classes, tópicos presentes na raiz de Estação Perdido. Enquanto apresenta a cidade como organismo vivo e tumorístico englobando de forma voraz seus habitantes, ele se permite apresentar, esporadicamente, relações de trabalho cruéis e autoritárias, que zombam da forma como nós mesmos construímos nossas próprias.

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Arte de Marc Simonetti sobre o universo de Estação Perdido.

“Se aceitar essa encomenda, eu a tornarei rica, mas também passarei a ser dono de parte de sua mente. A parte que me pertence. Essa será minha. Não lhe darei permissão para compartilhá-la com ninguém. Se o fizer, sofrerá enormemente antes de morrer.” — Estação Perdido, China Miéville.

Crítica rasgada e de contorcer o estômago. A intenção parece ser a de não amenizar o desconforto já que, mesmo em cenas relativamente ternas, temos uma sensação de fugacidade, medo e melancolia. Encontra-se de tudo nessa obra: greves contidas na base da força de uma milícia sem escrúpulos, uma sociedade rigidamente construída sobre preconceitos de casta, sexualidade feminina reprimida, tortura em Estados de exceção, imprensa calada, dilemas morais, busca desenfreada e irracional por poder. Se está precisando passar um tempo confortável em um universo novo de fantasia, não aconselho que sua escolha seja por esse livro do inglês de nome peculiar.

PADRÕES COLORIDOS, AMIZADES IMPROVÁVEIS E A CAPACIDADE DE VOAR: SINOPSE

Acredito que a história tenha sido apenas uma ferramenta para permitir a Miéville explorar a construção de sua cidade imperfeita. Os dilemas pessoais dos personagens se confundem com as características utilizadas para montar a ideia de um lugar onde até mesmo os prédios, a chuva ou a universidade transbordam podridão traiçoeira.

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Isaac Der Grimnebulin, por Omecran Cirit.

Nesse contexto, conhecemos Isaac Der Grimnebulin, um cientista negro, por volta dos trinta e poucos anos, com alguns quilinhos a mais, e que está profundamente insatisfeito com os rumos que sua produção científica tem tomado. Ele mantêm um caso amoroso às escuras com uma representante da raça khepri chamada Lin,  uma mistura de traços formais de insetos com anatomia humana. Os khepris, entretanto, são considerados escória, e assumir a amante publicamente causaria escândalos que Isaac parece querer adiar.

Compondo o entorno, temos seus amigos de república, robôs que fazem a limpeza, uma imprensa rebelde que revela os desmandos do governo corrupto, contatos não muito amistosos com o diretor da universidade e uma visita inesperada de um Garuda.

Garudas compõem o cardápio de espécies criadas por China e, basicamente, são homens-pássaros gigantes, com aspecto de águia, que moram no deserto e possuem um rígido código moral. Entretanto, Yagharek, nome do misterioso visitante, não é como os seus; ele perdeu, durante um julgamento, sua mais preciosa capacidade: o voo.

Ajudar a enorme criatura terá um preço alto, e dá o mote para a história.

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Lin, por Omecran Cirit.

“Voar não é um luxo; é o que faz de mim um garuda. Minha pele se arrepia quando olho para tetos que me aprisionam. Eu quero olhar para esta cidade do alto antes de deixá-la, Grimnebulin. Quero voar não uma vez só, mas sempre que desejar. Quero que você me restiutua o voo.” — Estação Perdido, China Méville.

MINHAS IMPRESSÕES

Existe aqui uma impressionante carga criativa e curiosa fusão que privilegia o caráter político na literatura de fantasia. Me surpreendi com esses tópicos levantados por China e com a gigante tarefa de fazer funcionar uma colcha cinzenta de retalhos que é Nova Crobuzon.

Confesso que senti empatia por diversos personagens seus: Lin e seus desgostos na profissão artística, bem como a confusa relação familiar e a posição feminina na sociedade; o paradoxo moral que se configura em Yagharek; a evolução tateante operada em um personagem com muitos tons de cinza como o é Grimnebulin (piada infame alert 😛 ).

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Nova Crobuzon, por Justin Oak.

No entanto, apesar das efusivas resenhas e comentários de autores diversos sobre a magnitude de Estação Perdido, me incomodei com alguns aspectos da obra. O fato de a atmosfera lúgubre e depressiva ser criada de forma um tanto quanto apelativa e com uso muito extensivo de adjetivos “chocantes” fez com que o impacto se perdesse. Quando a lama é a ordem do dia e o leitor percebe a intenção desesperada do autor por conduzi-lo através dela, ele pode entediar-se. Aconteceu comigo.

Senti que a  necessidade de romper, exasperar ou causar aversão no leitor não deixou muito espaço para conjecturar sobre boas ideias e passagens construídas por Miéville. Palavras pouco usuais sendo utilizadas de forma indiscriminada e constante também foi um aspecto que me incomodou um pouco, como no caso da palavra “convoluto”. As barriguinhas e momentos truncados podem ter acontecido devido a isso.

Me causou certa estranheza algumas atitudes não condizentes de alguns personagens que, dada a personalidade construída ao longo da trama, passam repentinamente a outro alinhamento temporário, como Lemuel Pombo. O faz-tudo egoísta, por tempos, é tomado de uma faísca altruísta pouco convincente.

Os personagens parecem ser meras ocasiões de choque e desesperança, lutando uma causa perdida, lutando contra o inelutável. Essa sensação fatalista acompanha a obra e pode ter sido, somada a outros fatores, um dos pontos que me fez sentir que o leitor tinha pouco espaço para absorver e contribuir com suas próprias sensações para a obra, já que ela, assim como a milícia de Nova Crobuzon, não permitia transgressões de pensamento ou rotas muito desviantes.

Apesar das críticas, recomendo a leitura de Estação Perdido. É um livro acima da média, com proposta ousada e que enxerga a fantasia por um prisma político interessante. Espero, com curiosidade, os novos lançamentos que a Boitempo já anunciou referentes ao mesmo universo, o planeta de Bas-Lag. Certeza de que se darão novos encontros bizarros com o espelho de uma realidade mais próxima do que queremos crer.

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Jovi

 

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