Não me abandone jamais — Kazuo Ishiguro

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Capa da 2º edição brasileira de Never let me go.

Internato de Hailsham, Inglaterra, 1978.

Crianças brincam em um ambiente idílico, com natureza exuberante e um excessivo incentivo às expressões artísticas, colecionismo e permutas.

As crianças de Hailsham são “especiais”.

Entretanto, descobrir o que esta pequena palavra, “especial”, pode significar neste romance retro/distópico do premiado autor Kazuo Ishiguro, o fará, inevitavelmente, irromper em lágrimas, provocando um desconforto existencial que poucas obras conseguem evocar.

“Enxerguei um novo mundo chegando muito rápido. Mais científico, mais eficiente, é verdade. Mais curas para as velhas doenças. Muito bem. Mas um mundo duro, um mundo cruel. E vi uma menina novinha, de olhos bem fechados, segurando no colo o mundo antigo e bom de antes, o mundo que ela sabia, lá no fundo, que não poderia continuar existindo, e ela segurando esse mundo no colo e pedindo para ele não deixá-la partir.” – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro.

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Fita que (junto com outros fatores) origina o título do livro.

Há uma grande dificuldade intrínseca em desenvolver uma resenha para um livro como “Não me abandone jamais”. Ele carrega em sua estrutura um formato tão particular e delicado, que a minha vontade de compartilhar as experiências vividas poderia colocar em risco as experiências futuras que você, leitor, poderia ter.

Portanto, resolvi fazer, sim, uma resenha discutindo – de forma breve, é verdade- algumas das questões que podem ser levantadas ao se fechar o livro, mas não entregaria nenhuma de suas tão bem cuidadas surpresas.

Pois bem, mas sobre o que se trata mesmo?

Temos aqui um livro de memórias da personagem principal, Kathy H. Kathy é ex-aluna de Hailsham, internato inglês de regras obscuras que entrega verdades cruéis sobre a vida e destino de seus alunos de maneira homeopática e anestesiante. Os estudantes compreendem, mas de forma difusa, até que finalmente a realidade se mostre inevitável na vida adulta. Eles não são iguais ao seus “guardiões”, ou professores. Não são como as pessoas que moram fora dos portões da escola.

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Cena do filme Never let me go, 2010.

Descobrimos, assim como eles, devagar. E nos assustamos cada vez mais a cada descoberta. A discussão sobre o que significa a palavra “humano” se torna pungente, e, junto com Kathy, acompanhamos cacos de seu passado com os amigos Tommy e Ruth, construindo, aos poucos, laços com estes personagens, da infância até o fim das suas segundas décadas.

Mas como um livro de memórias pode ser tão aterrador?

A verdade é que não é apenas um livro de memórias, mas um livro onde relembrar é um dispositivo para lidar com a efemeridade da vida em uma sociedade extremamente injusta. Como posto pela professora de ciência política Nancy Fraser, o que o livro oferece é uma discussão sobre justiça ao apresentar uma negação da mesma:

“Se examinarmos a ordem social descrita em Não me abandone jamais e indagarmos por que, e sob quais aspectos, ela é injusta, deparamo-nos com uma resposta óbvia: essa ordem social é injusta porque ela é exploradora.” –  Sobre justiça: lições de Platão, Rawls e Ishiguro, Nancy Fraser, p.268,  2014.”

O universo distópico onde os personagens habitam é injusto. Mas ele assusta, em suma, porque se revela como uma alegoria para o nosso próprio. Os alunos “especiais” de Hailsham, são coisificados por um sistema que os vê como mercadoria (não, eu não contarei os motivos para isso!). Despí-los de humanidade, negá-la, abre precedente para que tal injustiça se abata sobre eles, e, por que não, sobre nós também, leitores. Ainda seguindo palavras da professora Nancy Fraser, o que Ishiguro faz é formular “[…] uma observação perspicaz sobre exclusão, identidade e alteridade” (Nancy Fraser, p.268).

” ‘Se ela tem medo de vocês? Todos nós temos medo de vocês. Eu própria muitas vezes precisei reprimir o pavor que tinha de vocês. Certas horas, quando eu olhava para vocês lá fora, da janela do meu gabinete, me dava tamanha repulsa…’ Calou-se, mas logo em seguida os olhos faiscaram de novo. ‘Mas eu estava decidida a não permitir que esses sentimentos me impedissem de fazer o que era certo. Lutei contra eles e venci.’ ” – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro.

Diante da injustiça e inevitabilidade de seus destinos, cada um dos três personagens principais reage de uma maneira. Tommy irrompe em uma raiva que não sabe explicar de onde vêm, mas que pode nascer do conhecimento de seu destino inexorável; Ruth dissimula, pretende, ilude a si mesma para que a dor do mundo real seja amortecida nas fantasias do imaginário; Kathy aceita. Ela abraça o horror endereçado a ela desde o nascimento, mas mantêm-se em frangalhos, procurando sua identidade e força nas memórias dos, tão curtos, momentos de amor e pertencimento que viveu com seus amigos.

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Kath, em cena do filme Never let me go, 2010.

“[…] pode-se considerar o romance de Ishiguro uma obra sobre oportunidades perdidas, memórias e mortalidade, que desloca o discurso científico de seu ambiente abstrato para ressignificá-lo cultural e socialmente” – Desumanização, doutrinamento e aceitação: o discurso científico na obra “Não me abandone jamais”, de Kazuo Ishiguro, Fernanda Aquino Silvestre, p. 93, 2013.

Se os protagonistas, assim como todos os demais alunos de Hailsham, têm sua humanidade contestada, vemos a arte representar um papel fundamental no romance. Os professores a incentivam como uma forma de “revelar-lhes a alma”. A arte entra aqui como dispositivo de validação da natureza humana, assim como o incentivo ao colecionismo. Os alunos, eventualmente, adquirem e trocam entre si objetos vários, formando o que chamam de “coleções”. Estas coleções se mostram muito importantes para que eles compreendam o sentido de “trocar”, “ceder”. Estas palavras estão intimamente ligadas ao destino final de suas vidas.

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Cena de Never let me go, 2010.

Acerca da personalidade e o colecionismo, diz Rubem Alves:

“Os pedaços do meu mundo – meus objetos, meus livros, meus quadros, minhas músicas, minhas palavras – são tentativas de tornar visíveis as paisagens da alma […] são objetificações do espírito, o meu desejo oferecido ao outro sobre forma visível” – Um mundo num grão de areia, Rubem Alves, 2007.

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Never let me go, em adaptação para o cinema pelo diretor Mark Romanek, 2010.

A arte, as coleções, as memórias e o clima cotidiano e afetivo do livro, são recursos que o autor utiliza para humanizar o outro, o diferente, aproximando-o de nós mesmos. E nos aproximamos de tal maneira, que as regras de uma sociedade científica brutal nos incomoda permanentemente durante a leitura. Os personagens teriam, para esta estrutura social, apenas valor extrínseco. Mas, para nós, leitores, seu valor intrínseco é patente, comove.

O livro possui uma adaptação para o cinema com fotografia e interpretações bonitas, apesar de o roteiro ser muito raso em comparação com o livro. Sugiro fortemente que leia primeiro. A escrita de Kazuo toca fundo o nosso coração. Aliás, prepare-se para parti-lo em tantos pedaços, que nem mesmo cola super bonder será capaz de colá-los novamente.

Não se sai ileso da leitura de “Não me abandone jamais”.

“Não consigo parar de pensar nesse rio, não sei onde, cujas águas se movem com uma velocidade impressionante. E nas duas pessoas dentro da água, tentando se segurar uma na outra, se agarrando o máximo que podem, mas no fim não dá mais. A corrente é muito forte. Eles precisam se soltar, se separar. É assim que eu acho que acontece com a gente. É uma pena, Kath, porque nós nos amamos a vida toda.” – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro.

five stars

Jovi

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