Desculpem o transtorno, precisamos falar sobre o dia do professor

“O ideal seria que os professores não se aposentassem.”

Foi com esse duvidoso elogio, proferido recentemente pela jornalista Miriam Leitão, que comecei a escrever um daqueles textões no Facebook.

Não estou entre as pessoas mais ativas das redes sociais. Não tenho Twitter. Jamais respondo ao “bom dia” nos grupos do WhatsApp. O Facebook, no entanto, frequentemente me serve de espaço para dizer aos amigos o quanto estou satisfeita ou insatisfeita com alguma coisa, sempre que essa coisa também possa ser relevante para eles.

Então comecei meu textão. Foi aí que me lembrei dos amigos do Clube do Livro, que tantas vezes já colocaram este espaço à minha disposição, e achei que o que eu tinha a dizer hoje valeria um post de última hora neste blog de literatura, que além de ser administrado por colegas professoras, também acabou se tornando minha casa.

Este é, ao mesmo tempo, um desabafo e um abraço solidário em todos os professores aos quais este texto possa chegar, especialmente aos que lecionam na rede pública e que serão os primeiros a enfrentarem, mais uma vez, os desmandos de um governo que não dialoga com a população da qual se diz representante.

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Fonte: O Cafezinho.

Foram muitas porradas na cara do professor este ano, não? Desde retirada de direitos até porrada de verdade, como as que a PM adora distribuir em dia de manifestação.

Teve o projeto Escola Sem Partido, uma espécie de lei da mordaça, altamente partidária, a fim de impedir o pensamento crítico no ambiente escolar.

Teve flexibilização de direitos trabalhistas conquistados em anos de luta, cuja única coisa que irá “flexibilizar” é o lucro do empregador, que desconhece a realidade da sala de aula.

Teve o fim dos royalties do petróleo, até então destinados às áreas de Educação e Saúde.

Teve corte nas vagas das universidades públicas, sem ao menos uma justificativa, por mais duvidosa que fosse.

Teve ministro indo à TV aberta dizer que os investimentos em Educação estarão congelados pelos próximos 20 anos e que isso será ótimo para o desenvolvimento do país.

Foram tantos golpes na Escola, golpes covardes, planejados e profissionais, que os ladrões de merenda, hoje, não parecem passar de meros trombadinhas, não é mesmo?

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Portaria Normativa nº 20/2016: menos vagas nas universidades.

Não tem sido fácil ser professor. Não tem sido fácil ser brasileiro.

Você dá aula de manhã, de tarde e de noite, trabalha em três escolas, leva papel higiênico na bolsa, passa finais de semana corrigindo prova, faz malabarismo para convencer seu aluno da periferia que vale a pena concluir pelo menos o Ensino Médio, apesar das lacunas de aprendizado que ele tem, acumuladas em anos, e que você, sozinho, sabe que não vai conseguir suprir. Além da infraestrutura medíocre da escola, sobre a qual você não pode fazer muita coisa. Além de todos os problemas familiares que seu aluno tem e que você sabe que o prejudicam na aprendizagem.

Além de tudo isso, de toda essa prática diária de persistência e esperança, ter que ouvir que o professor tem “privilégios” porque se aposenta mais cedo e tem férias duas vezes por ano é dose. Como também é dose ouvir que greve de professor é “mimimi”. Que professor de universidade não tem direito de reclamar porque ganha bem (como se um profissional não pudesse sempre almejar condições melhores de trabalho, ou, pior: como se alguém que tem mestrado e doutorado — pois essa é a realidade de um professor de universidade — não devesse, mesmo, “ganhar bem”).

Esses dias vimos acontecer em Brasília um jantar de luxo, bancado pelos cofres públicos, em que 400 pessoas se reuniram para falar da importância de conter os gastos públicos. Percebem o absurdo?

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Jantar milionário para aprovação da PEC 241. Crédito da imagem: Revista Exame.

Há, sim, muitas esferas de onde se podem cortar gastos públicos. As últimas delas deveriam ser Saúde e Educação. Quando ficará claro que dinheiro empregado em Saúde e Educação não é gasto, mas sim investimento?

O Judiciário teve aumento este ano, e os parlamentares também terão. Desembargadores seguem com seus auxílios-moradias exorbitantes. As grandes fortunas seguem não sendo taxadas. O Congresso custa, sozinho, R$23 milhões por dia. Os gastos com publicidade aumentam mês após mês em proporção geométrica. Só aqui no Facebook, por exemplo, o governo não eleito já gastou mais de R$3 milhões em publicidade entre maio e agosto deste ano. Com a emissora Globo, o gasto com publicidade foi de R$15 milhões no mesmo período, que, percebam, é de apenas três meses.

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O tweet é do Marco Gomes, mas essas e outras despesas estão disponíveis para conferência no site da Secom.

Por essas e por outras, por muitas outras, que reitero meu profundo respeito e apoio incondicional por quem ainda insiste nesse verdadeiro sacerdócio que se tornou lecionar no Brasil. Ser professor é, antes de tudo, um ato de resistência. E mais ainda: um ato de amor pelo próximo. De extremo amor. Pois só isso justifica tamanha entrega.

Professores, vocês são maravilhosos.

MARAVILHOSOS.

Fiquem com o meu abraço e com o de todos os amigos do Clube do Livro.

Fora, Temer.

 

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