A Busca Onírica por Kadath — H.P. Lovecraft

No verso do livro, lê-se assim: “a Busca Onírica por Kadath pertence ao Ciclo dos Sonhos e é protagonizada por Randolph Carter, o alterego de Lovecraft. Depois de sonhar três vezes com uma fabulosa cidade ao pôr do sol e de três vezes acordar sem ter contemplado a grandeza do maravilhoso panorama criado por sua fantasia, Randolph Carter resolve buscar a permissão dos deuses da terra para visitar a cidade resplandecente. Para tanto, mergulha no mundo dos sonhos e empreende uma longa jornada repleta de perigos em busca de Kadath na desolação gelada — embora nem mesmo as estranhas criaturas que habitam as terras oníricas tenham certeza à existência do lugar”.

Howard Phillips Lovecraft foi um escritor estadunidense. Nasceu no ano de 1890 e morreu no ano de 1937, aos 46 anos de idade. Durante sua vida, não fez muito sucesso, atraindo poucos leitores ao seu gênero de terror cósmico. Mas, ao passar dos anos, é considerado um dos escritores mais influentes do século XX.

A obra de Lovecraft teve e ainda tem uma grande influência nos dias de hoje. Talvez dois dos exemplos mais famosos sejam Conan e Supernatural. Mas estou aqui hoje para falar de uma obra específica, A Busca Onírica por Kadath.

Em inglês, o título do texto é The Dream-Quest of Unknown Kadath. A história segue o personagem Randolph Carter, um “sonhador profissional”. Depois de sonhar três vezes com uma majestosa cidade, mas sem conseguir chegar lá, ele reza aos deuses dos sonhos para que revelem a localização da cidade fantasma. Sem uma resposta, decide ele mesmo ir até Kadath, a morada dos deuses, para implorar por uma resposta. O problema é que ninguém nunca foi e ninguém sabe onde fica Kadath. Fazendo o que ele sabe fazer de melhor, Carter desce, em sonho, à procura da cidade. Ao falar do seu plano para os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah, ele é advertido que existe um grande perigo em sua busca e que os deuses interromperam seus sonhos da cidade de propósito.

A partir daí, conhecemos algumas criaturas do estilo lovecrafitiano. Carter encontra primeiro os zoogs, uma raça de roedores predadores e senciente. O encontro com os zoogs poderia ser terrível para alguém despreparado, mas Carter é um sonhador profissional, conhece a língua e os costumes dos zoogs. Quando Carter pergunta para os zoogs sobre Kadath, eles o instruem a ir para a cidade de Ulthar, para encontrar um sábio mago chamado Atal, que foi ensinado à maneira dos deuses.

Gatos. Gatos para todos os lados. Ulthar é a cidade dos gatos. Nesse trecho do livro, tem-se certeza absoluta que Lovecraft é um amante de gatos. Ele inclusive tem um conto chamado Os Gatos de Ulthar. Na cidade de Ulthar, os gatos são a lei. A cidade conta com um exército poderoso de gatos guerreiros e Carter sabe como agradar os bichanos. Ao falar com Atal, este menciona uma enorme escultura forjada no lado oculto de Ngraned, que mostra as características dos deuses. Carter percebe que, se ele conseguir ir para Ngranek examinar a escultura e encontrar um local onde os mortais compartilham essas características, então ele deveria estar próximo a Kadath.

A história continua com o protagonista embarcando nas Gales Negras em uma viagem pelo espaço, que é agoniante de ler. Ele vê criaturas amorfas que se alimentam de outras. Depois, o leitor conhecerá a lenda de Nyarlathotep, o caos rastejante, e vai ficar enojado só de imaginar a existência de uma criatura como essa.

O resto da história vou deixar para você ler e vou partir para minhas impressões sobre o livro. Por se tratar de um conto que faz parte do chamado Ciclo dos Sonhos, é esperado que o leitor já conheça Randolph Carter. Logo no início do livro, são mostradas as habilidades de Carter como sonhador, mas isso me fez questionar várias coisas. Por que ele pode sonhar desse jeito? Ele sonha tudo isso durante uma noite? Por que só ele sonhava com Kadath?

Não fica muito claro quem é Randolph Carter e por que ele tem esses sonhos, mas vamos seguindo seus passos oníricos pela terra dos sonhos. A descrição das criaturas é bem interessante. São poucas as criaturas que têm uma forma definida. Muitas das descrições dizem que uma pessoa comum entraria em colapso ao se deparar com essas criaturas. Isso é um aspecto bem interessante da mitologia criada por Lovecraft. Algo como os problemas da humanidade não são nada perto dos perigos do cosmos.

Uma coisa que não me agrada é a falta de falas. O livro tem mais de 100 páginas sem nenhuma pausa, sem nenhuma fala explícita e sem divisão de capítulos. Se isso é intencional eu não sei, mas, na minha concepção, é exatamente como um sonho, uma sequência sem pausa de eventos intensos e, às vezes, sem explicação. Estou escrevendo esse texto de propósito, sem nenhuma divisão ou figuras, para que você tenha a mesma sensação que eu tive ao ler o livro!

É difícil falar das coisas terríveis que acontecem na obra, mas o mais terrível é imaginar o porquê de ele escrever esses contos. Para tentar mostrar um pouco de onde veio esse fascínio pelo medo, vou reproduzir um trecho de uma carta escrita por ele para Harry Otto Fischer: “não lido bem com a dor, e evito-a sempre que possível. Mesmo assim, sempre evito gritar. Quando era menino, eu tinha medo do escuro, que minha imaginação povoava com toda sorte de coisas; porém meu avô me curou quando me desafiou a andar por certas partes escuras da casa quando eu tinha 3 ou 4 anos. A partir de então, os lugares escuros sempre tiveram um certo fascínio para mim. Foi nos sonhos que conheci o verdadeiro poder do medo terrível, enlouquecedor e paralisante em estado puro. Meus pesadelos de infância foram clássicos e não houve neles um único abismo de agonizante horror cósmico que eu não tenha explorado. Não tenho mais esses sonhos – mas as lembranças que deixaram jamais vão me abandonar […]. Muitas vezes eu acordava com gritos de pânico e lutava desesperadamente contra o sono e os horrores adumbrados com linhas tão negras e tão sinistras quanto às de qualquer um dos triunfos em estêncil de nosso amigo Fafhrd […]. O relato de Randolph Carter é a transcrição literal de um sonho […]. O grosso da raça humana vive muito pouco no reino da imaginação e, sendo assim, poucas vezes consegue compreender os objetivos, as motivações e as aspirações de um indivíduo para quem perspectivas sutis, associações simbólicas e correlações mentais obscuras são fatores emocionais importantes”.

Não sei quanto a você, mas esses trechos dessa carta me marcaram bastante sobre a visão do autor do mundo. Para ele, a grande maioria das pessoas não conhecia mais o mundo da imaginação e, por isso, falham em entender pessoas imaginativas. Apesar de seu conservadorismo, nada poderia ser mais atual. Ninguém tem mais tempo para imaginar, para viajar no mundo dos sonhos em busca de sua própria Kadath.

Por último, mas não menos importante, encontrei este link com a obra completa de Lovecraft, porém está em inglês, mas fica a dica.

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Thales

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