Treblinka: a revolta de um campo de extermínio — Jean-François Steiner

treblinka cover .jpg“It was death.” 

Essa sentença simples, resumida pela voz de Samuel Willemberg, último sobrevivente de um dos maiores campos de extermínio nazistas, resume muito do que senti lendo o livro controverso e assustador de Jean-François Steiner: morte.

Samuel, falecido em fevereiro deste ano, com 93 anos, resume, com sua afirmação, mais do que mortes de judeus. Podemos entendê-la como morte das relações humanas, da compaixão, morte da tolerância, morte das esperanças e de todas as pequenas cotidianidades e fundamentos que nos tornam seres humanos viventes. Um sofrimento a cada página virada, e um encontro devastador com um dos períodos mais terríveis da nossa história recente.

Bem-vindos a Treblinka.

SOBRE RELATOS REAIS E A ARTE LITERÁRIA

“Como uma voz que recusa as inflexões humanas, o autor descreve um mundo desumanizado; no entanto, é de homens que se trata, o leitor não o esquece e esse contraste provoca nele um escândalo intelectual mais profundo e mais durável que qualquer emoção.” — Simone de Beauvoir, em prefácio do livro Treblinka.

Os paralelos entre artifícios literários e relatos reais dos horrores aplicados no campo de concentração Treblinka  perpassam toda a obra de Steiner, nublando-a por vezes.

Descendente de pai vítima dos nazistas, o autor remonta, com auxílio de uma série de pesquisas e testemunhos, os caminhos traçados pelos ditos “técnicos” do III Reich no processo de despir judeus de qualquer traço de humanidade, quebrar-lhes o espírito e ímpeto, colocando-os na condição de meras sombras de seres humanos.

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Samuel Willemberg.

Com isso, visava-se facilitar o processo conhecido por “Solução Final”, que, por sua vez, consistia no aniquilamento em massa de judeus. Steiner se debruça sobre as artimanhas psicológicas empregadas, e, em ritmo de inegável qualidade estética literária, nos conduz pelos trilhos dos trens que levavam a um lugar de onde não se sai jamais. Não da mesma maneira que se entrou.

“Isto nunca me deixou. Permanece em minha cabeça. Estará comigo para sempre.” — Samuel Willemberg, em matéria do site http://www.independent.ie.

O livro segue até culminar com os acontecimentos que possibilitaram um levante dos condenados contra seus algozes ucranianos e alemães. A revolta dos judeus de Treblinka ocupa os capítulos finais e é construída de maneira lenta e dolorosa, já que, ao longo de cada página, torturas psicológicas e físicas de tradução inominável vão deixar você com vontade de fazer longas pausas na leitura, tentando se recuperar e acreditar que é apenas ficção.

No entanto, como nos diz Beauvoir na acima citada frase do prefácio, “é de homens que se trata”, e, apesar de se valer da arte e literatura para formar seu livro, os pontos que mais me impactaram na obra de Steiner dizem respeito à pessoas e como foram conduzidas ao abismo da coisificação.

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Trilhos remanescentes do caminho que levava a Treblinka.

Por se tratar de um romance, podemos nos pegar refletindo sobre seu valor histórico. Entretanto, acredito na afirmação de Márcio Seligmann-Silva, quando relata que:

“Aquilo que transcende a verossimilhança exige uma reformulação artística para a sua transmissão.”  Márcio Seligmann-Silva, O testemunho: entre a ficção e o real, 2003.

Ainda sobre o valor da literatura e fição para se contar fatos reais que, por si, parecem impensáveis, coloco abaixo uma fala de George Steiner que resume a necessidade da arte para tratar da crueldade do real:

“Acreditamos; entretanto, não acreditamos de maneira intolerável porque suspiramos de alívio quando reconhecemos uma estratégia literária, uma pincelada estilística, parecida, afinal, com o que já encontramos num romance. O estético torna suportável.” — George Steiner, citação de Anna Basevi no artigo Silêncio e Literatura: as aporias da testemunha, p. 167, 2013.

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Fotos de uma deportação de judeus para o campo de extermínio Treblinka.

SOBRE A DIFICULDADE DE ENCARAR O INOMINÁVEL

Após fechar o livro Treblinka, me vi procurando rastros que fossem além da leitura, me revelassem mais um pouco da história que havia acabado de ler. O triste e difícil é nos vermos diante da confirmação, palpável, de objetos pertencentes às pessoas que lá estiveram, que sofreram sensações e dores que sequer podemos conceber, ver as estradas de ferro e as florestas que assombram os personagens nos escritos de Steiner.

Um dos poucos sobreviventes do levante narrado na obra, Samuel Willemberg, em entrevista concedida à rede de televisão BBC durante o aniversário de 70 anos da revolta, revela muitos dos fatos que gostaríamos de crer apenas ficção.

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Estação do campo de extermínio Treblinka.

Assim como narrado por Steiner, Samuel revela como funcionavam as distribuições de função, as câmaras de gás, e a maneira pela qual os próprios judeus eram obrigados a recolher os pertences dos corpos que acabavam de serem levados para o “banho”, quando da chegada de trens dos guetos.

“Minha irmã menor tinha um casaco que havia ficado pequeno nela. Minha mãe aumentou o tamanho das mangas com um pedaço de veludo verde. Foi assim que eu reconheci (o casaco). Eu ainda consigo vê-lo hoje. Foi assim que eu fiquei sabendo que minhas irmãs acabaram em Treblinka. Eu compreendi que eu não tinha mais irmãs.” — Samuel Willemberg, em entrevista para a rede de televisão BBC.

O campo dividira-se em uma área de recepção, a área de moradias e a parte reservada à matança. Os que conseguiam sobreviver ao “banho” inicial, assim o faziam através de declarações de profissão. Se fossem úteis por um tempo determinado, manteriam-se vivos, apesar das circunstâncias em que essa vida seria mantida fossem degradantes além do que podemos imaginar.

“Ele disse: ‘diga a eles que você é um pedreiro’. Em poucos segundos, um oficial da SS entrou perguntando ‘onde está o pedreiro?’. Eu me levantei e mostrei a ele o avental sujo com a tinta de meu pai, e isso o convenceu. Ele me mandou para as acomodações dos prisioneiros com um chute no traseiro. Uma cidade inteira, três grupos de 20 vagões, foi para a câmara de gás”- Samuel Willenberg em entrevista à BBC.

As descrições de torturas e apuros sofridos pelos judeus no início da formação dos guetos e findando em Treblinka com o levante final, são duras e de uma frieza que pode espantar o leitor.

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Treblinka.

Ao longo da narrativa principal — os fios condutores da revolta — acompanhamos histórias pessoais e curtas que terminam, em sua grande maioria, em mortes terríveis e que logo se somam às muitas outras enfileiradas em valas comuns. Algumas são realmente difíceis de digerir. Se você está procurando por uma leitura leve, certamente esse não é o livro que eu recomendo.

SOBRE A MANUTENÇÃO DA CONDIÇÃO HUMANA

“Os prisioneiros compreenderam rapidamente o perigo e aperfeiçoaram um meio para poderem sobreviver, embora temporariamente. Conquanto não se tratasse senão de adiar a morte inevitável, decidiram que a única maneira de colocar-se ao abrigo dos golpes era esconder o rosto, numa verdadeira ‘tática de avestruz’. Isso iria conduzi-los ao ‘complexo do rosto’, que era precisamente o que esperavam os ‘técnicos’. Esses prisioneiros, que já não tinham mais nome e nem sequer um número de matrícula, perderam inclusive suas feições.”  Treblinka, p. 91.

Durante a leitura, percebemos que a maior luta dos confinados em Treblinka era a necessidade de se manterem apegados a um fio de humanidade que os permitisse algum sentimento de amor à vida.

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Deportações para Treblinka, 1942.

As estratégias dos soldados alemães e ucranianos empregadas em coisificá-los, torná-los seres à parte da raça humana, produziu não apenas uma luta desesperada para se manter fisicamente vivo, mas também psicológica e emocionalmente.

Percebemos essa faceta na declaração do sobrevivente Robert Antelme, jornalista, descrita em seu livro A espécie humana e citada no artigo  SOBRE VIVER (ENTRE GIORGIO AGAMBEN E PRIMO LEVI), do pesquisador Joao Camilo Penna:

“O resultado de nossa luta terá sido apenas a reivindicação arrebatada e quase sempre solitária de permanecer, ate 0 fim, homens. […] Dizer que nos sentimos então contestados enquanto homens, enquanto membros de uma espécie, pode parecer um sentimento retrospectivo, uma explicação posterior. E isso, no entanto, que foi mais imediatamente sensível e vivido, e é isso, por sinal, exatamente isso que foi querido pelos outros [os detentos de direito comum e a administração 55]. A colocação em dúvida da qualidade de homem provoca uma reivindicação quase biológica de pertencimento a espécie humana.”  A espécie humana, Robert Antelme.

Enquanto os moradores do campo lutavam para manter-se sãos como fosse possível, ao longo da leitura me vi diante de mim mesma perguntando o quão frágil é a camada que nos separa da barbárie. O quanto as guerras e ódios infundados nos levam, como rios caudalosos e imperiosos, a nos esquecer dos significados da palavra empatia e cometer atos que não posso qualificar como “humanos”.

Se nazistas empregaram técnicas várias de esvaziamento da condição humana em seus prisioneiros, percebo claramente que, também eles se afastavam paulatinamente de uma condição dita humana. Já não havia ali tolerância, respeito ou compaixão pelo outro, pelas diferenças. Apenas massacre e a loucura de um inferno criado e cercado por farpas de arame.

“A loucura daquele mundo a parte alcançava proporções imprevisíveis. Dentro em pouco a terra se abriria para engolir o campo. Como um barco surpreendido pela tormenta, Treblinka submergiria para ceder lugar a campos serenos, inocentes como a superfície plana e luminosa do mar, passada a tempestade. Esquecidos os dramas, viria a serenidade eterna…” — Treblinka, p. 365.

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Restos humanos ainda são encontrados em Treblinka.

Como diz a professora doutora Dina Lida Kinoshita, em seu artigo A literatura do Holocausto e da resistência:

“A resistência cultural e sua produção literária foram de suma importância para se tomar conhecimento do que aconteceu. Há, também, uma literatura posterior de memórias individuais e coletivas. A partir dos anos 1980, são publicadas obras mais densas, de largo fôlego, produzidas por romancistas e estudiosos das ciências humanas. O assunto, seguramente, é inesgotável.” p. 19.

O assunto é inesgotável, certamente, e cabe a nós não esquecê-lo. A memória talvez seja a maior arma que temos para impedir que barbaridades semelhantes voltem a acontecer. Lutemos contra a serenidade eterna.

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Memorial e cemitério simbólico em Treblinka.

INDICAÇÕES

Indico para os que se interessam por relatos de sobreviventes do Holocauso o podcast Projeto Humanos, feito pelo Ivan Mizanzuk, no qual entrevista Lili Jaffe, uma mulher que escapou com vida de Auschwitz. Segue o link do primeiro episódio do programa: Projeto Humanos #1

five stars

Jovi

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5 comentários em “Treblinka: a revolta de um campo de extermínio — Jean-François Steiner

  1. Nossa!!! Que resenha incrível! Preciso te parabenizar pelo trabalho pois sei que não é fácil criar um texto tão perfeito!!!
    Tudo que tem a ver com Segunda Guerra me interessa muito e esse livro acaba de entrar para minha lista de próximas leituras, embora deva admitir que talvez precise de mais coragem para lidar com depoimentos e relatos de tanto sofrimento e crueldade. Só a resenha e as fotos já são o suficiente para abalar um pouco o emocional, que dirá o livro!

    Keity Barros

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigada pelo comentário super gentil Keity! Adorei recebê-lo!
      Realmente é uma leitura extremamente dolorosa…
      Temos que tomar fôlego e criar coragem para abrir este livro, mas vale muito a pena.
      Apesar do tema espinhoso e que nos envergonha enquanto humanidade, espero que aproveite as leituras e volte para nos visitar nas próximas terças! Sempre temos resenhas nas terças, pensadas com o maior carinho^^

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Clube do Livro

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