O menino que falava com cães — Martin Mckenna

“A minha convivência com os cachorros tinha me levado a pensar um pouco sobre como tinha sido minha convivência com os seres humanos. Por que as pessoas aparentemente tinham tanta dificuldade para compreender e aceitar os outros?”  — O MENINO QUE FALAVA COM CÃES

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Você pode chegar até esse livro por várias portas: pode ser uma pessoa que tem um monte de cachorros indisciplinados e quer saber qual é a mágica que Martin usa para entender a linguagem canina; ou então você pode ser apenas mais uma pessoa em busca de um livro fofo sobre o relacionamento entre seres humanos e animais; ou talvez você seja aquela pessoa que adora ler livros sobre infâncias, ou autobiografias.

Seja qual for a porta pela qual você entre, esse livro tem um grande potencial para te emocionar e surpreender. Por que? Bom, vamos descobrir!

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Martin McKenna

Ele é curtinho, e, talvez por isso, eu tenha acreditado que passaria incólume pela história de Martin. Ledo engano.

Martin Mackenna conta sua infância de abusos, abandono, incompreensão, mas também amor e descoberta. O mais novo dos trigêmeos dos Faul, família irlandesa que morava em uma pequena província chamada Garryowen, nos conta como lutou contra as intempéries desde cedo, como foi adotado pela “gangue dos cachorros sujos” no período em que morou sozinho, nas ruas.

Mas calma! A gente chega lá! ; )

Martin já nasceu doentinho, o menor e mais franzino dos trigêmeos de uma família numerosa de oito crianças. Talvez esse começo difícil de existência fosse um prelúdio para o que viria em seguida. Nosso protagonista foi uma criança hiperativa, o que causava grandes problemas familiares em um ambiente já conturbado pelo alcoolismo do pai. Este, por sua vez, se tornava muito violento quando a bebida circulava por seu corpo, descontando a raiva acumulada no indisciplinado Martin.

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Os trigêmeos!

A escola foi um tormento à parte na vida do garoto. Seu TDAH lhe rendeu uma dose extra de dificuldade com o aprendizado e o relacionamento com as pessoas.

“Eu nasci com TDAH, mas em plena década de 1970 ninguém tinha ouvido falar desse problema. Se para você a sigla parece estranha, estou falado de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e, concordo, é um problema e tanto”  O MENINO QUE FALAVA COM CÃES

O TDAH não deixava Martin comer com os pais sem mexer descontroladamente os pés, pular sem parar por aí, ou mesmo se impacientar para dormir. Curiosamente a energia dos dois cães da família o tranquilizavam, a crise passava.

A escola também era um lugar complicado para uma criança com TDAH. Ficar sentado tranquilamente em frente de um quadro negro copiando a matéria era um sofrimento para ele, que não entendia como suas experiências escolares poderiam ser tão diferentes das dos outros alunos.

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Martin e seus irmãos, Andrew e John.

Eu confesso que foi difícil ler algumas das cenas narradas por ele, como as violências físicas e psicológicas praticadas por professores e diretores. É quase inacreditável que um profissional da educação tenha feito tantos estragos emocionais deliberadamente na vida de uma criança! São partes revoltantes. Você só quer entrar no livro e abraçar aquela criança, protegê-la de alguma forma.

Você tem certeza que não consegue nem escrever o seu nome?, perguntou-me o professor Keeley um dia. Até os mais estúpidos que eu tive até hoje conseguiram fazer essa coisa ridícula. Talvez a gente devesse mudar o seu nome para senhor EXTREMAMENTE BURRO, porque sem dúvida, você é o aluno mais idiota que eu já vi” — O MENINO QUE FALAVA COM CÃES

O narrador não parece alguém que superou tudo e conta, entre risadas, as coisas terríveis pelas quais passou. Ele se parece mais com alguém que se sentou do seu lado, do nada, em uma praça. Enquanto você jogava pipoca para as pombas, ele começou a contar sobre a vida, suas memórias.

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Família Faul e os trigêmeos.

“Olhei para a calçada, tentando desesperadamente conter as lágrimas. Se eu fosse um garoto normal, se não fosse tão burro, poderia estar ali com eles. Poderia ser tão feliz quanto eles pareciam naquele momento.”  O MENINO QUE FALAVA COM CÃES

Em meio a um turbilhão de problemas, Martin foge de casa e encontra o primeiro cachorro que formaria, com ele, a “gangue dos cachorros sujos”. Entre recordações familiares e memórias do seu convívio com a matilha nas ruas, o protagonista narra como foi descobrindo a maneira como os cães se comportavam entre si, sua linguagem própria e os signos que identificam a hierarquia de cada um no grupo.

É muito interessante perceber como Martin os compreendeu e por eles foi compreendido. Enquanto o mundo parecia um lugar hostil, com os cães Martin encontrava uma recepção verdadeiramente gentil, capaz de derreter seu coração e possivelmente nos levar às lágrimas em vários momentos. Mas eu não vou dar spoiller! hehe

“Os cães têm uma generosidade de espírito natural. Desde que eu conheci meus cachorros, eles davam tudo de si para mim  o dia todo, todo dia. Quando estava cercado por eles, eu podia ser eu mesmo, e eles generosamente me davam tudo que de melhor tinham para oferecer: carinho, atenção, proteção e sensação de pertencimento. Tudo isso em troca de quase nada.”  O MENINO QUE FALAVA COM CÃES

Mais do que te mostrar a maneira de se portar com cães, Martin vai desnudar a natureza quase mágica que só quem aprende com esses peludos pode entender. Ele vai pontuar como seres humanos, por vezes, podem não olhar para a situação particular dos animais, não mensurar as consequências de seus atos com relação a eles. Martin amadurece com os cachorros, e são eles que o darão as chaves para finalmente enfrentar seus maiores medos e dificuldades.

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Martin 🙂

Saímos do livro com a sensação de ter vivido um pouco as memórias de alguém, e isso é realmente uma joia que nem toda leitura é capaz de oferecer.

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Jovi

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