Vlad – a última confissão – C. C. Humphreys

“Decidi não julga-lo. Decidi mostrar o que ele fez e parar de me preocupar com seus motivos. Essencialmente, deixei-o ser quem ele foi, fosse o que fosse, colocar suas ações lado a lado com o registro de sua vida e com o contexto do lugar e época brutais em que viveu. Deixaria o leitor decidir.” –  C.C. Humpheys

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Um líder político sádico defende seu território do ataque do Império Otomano no século XV. Governando a província conhecida como Valáquia, “empalador” começou a ser uma palavra associada ao seu nome após aderir à essa prática cruel para punir seus inimigos.

Sangue? Realmente muito sangue foi derramado por ele. Mas não para servir de alimento. Aqui você vai esquecer as lendas que ouviu no livro de Bram Stoker para conhecer o verdadeiro Vlad Tepes, o Conde Drácula.

C.C Humphreys se debruça diante da tarefa de construção de um Drácula real, personagem histórico cujos crimes, abusos e loucura não foram poupados em cada página. Humphrey constrói um anti-herói sem redimi-lo de seus pecados. Assume para si a difícil tarefa de colocar o vilão em posição de protagonismo, retirando dele o carisma necessário para nos deixar confusos sobre se o amamos ou não.

“Salvação.

E então a palavra se perdeu em um grito, quando a navalha cortou seu ânus para permitir que a estaca rombuda e oleosa entrasse mais facilmente.” – Vlad – a última confissão.

Eu te falei que ele era adepto da prática de empalamento né? Mas afinal o que seria isso? Se você estiver comendo eu sugiro que leia outra hora….
Está pronto? Então aí vai:

Para empalar alguém Vlad usava estacas de madeira grandes, de mais ou menos uns 3 metros de comprimento, bem afiadas na extremidade superior. Essas estacas seriam introduzidas no ânus dos inimigos de Drácula que assistiria, as vezes durante dias, enquanto a estaca deslizava para o interior do corpo do pobre coitado. Terrível não é? D:

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Essa e outras crueldades são narradas no livro “Vlad: a última confissão”, que se constrói basicamente a partir da narrativa de alguns personagens que conviveram com Drácula, testemunhas que são usadas para construir uma imagem mais amistosa do voivoda (voivoda é uma palavra que significa governador ou príncipe herdeiro, bastante utilizada no livro de Humphreys). Para quê alguém iria querer amaciar os crimes do sujeito? Simples, para que a organização da qual ele fazia parte pudesse se reerguer desvinculando-se um pouco da imagem macabra que Drácula construiu.

Mas não só de conquistas e torturas vive o livro de Humphreys. Ele tenta mostrar a evolução do personagem, desde que este era uma criança deixada com os muçulmanos por motivos políticos, passando por sua adolescência, amores e os apuros pelos quais passou e que “quebraram” sua sensibilidade e capacidade de demonstrar piedade. O autor nos deixa julgar por nós mesmos. Cria uma camada cinzenta que dificulta a separação entre o vilão  e o mocinho.

Qual o resultado disso tudo? Bom, seguem as minhas boas e más impressões:

Pontos positivos do livro:

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Vlad Tepes por Fabian Monk

Este é um bom livro. Na verdade um livro muito bom. Gosto da edição da editora Record, com páginas amareladas, letras em relevo e uma bela ilustração em tons de verde e vermelho. Essas são as cores que o livro descreve para os olhos de Drácula. Belíssima capa, chama atenção logo de cara. O interior vai manter o capricho, por isso, nada a reclamar nesse sentido, pelo contrário.

– A leitura segue com surpresas interessantes, a história evolui e tem uma virada bastante impressionante no seu término. Se está com ele em mãos e se prepara para começar a lê-lo, vai encontrar um dos melhores prólogos que eu já vi serem escritos. Ele fará mais sentido e se tornará mais sensacional ao fim da leitura. Acredite.

A pesquisa histórica do autor transparece a cada nova frase escrita, percebe-se um cuidado na construção da narrativa e estrutura da obra. Isso é uma das coisas que realmente valorizo em qualquer trabalho literário. É fácil ler o livro, você se interessa pelos seus personagens, realmente bem construídos.

“[…] muito do que fora escrito era propaganda, contada principalmente por seus inimigos e conquistadores. Eles tinham boas razões para sujar seu nome. Não estou dizendo que Drácula não cometeu atos horrendos contra os turcos, os saxões da Transilvânia e seu próprio povo. Mas, quando ele foi vencido, foram esses inimigos que contaram a sua história.” – Vlad – a última confissão

Pontos negativos do livro:

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Busto de Vlad Tepes no museu militar de Bucareste, Romênia.

– A primeira coisa que devo citar como algo que me incomodou, é a tradução. Em vários momentos as frases ficam desconexas, palavras faltam, são escritas de forma confusa, enfim. Não li o original para saber se estes problemas são próprios da escrita de Humphreys, mas é uma coisa que eu achei bem chatinha.

Vlad não é um personagem com o qual você vai terminar o livro com um forte sentimento de empatia. Existem personagens “maus” que conseguem ter esse apelo, mas o Drácula histórico de Humphreys não é um deles. Em nota explicativa (e muito boa por sinal) no fim do livro, o autor explica que não procurou enaltecer Drácula, ou julgá-lo duramente por seus atos vis. Ele deixa que nós leitores, decidamos por nós mesmos. A ausência de um protagonista que possamos “torcer por”, é estranha, mas também não estraga a leitura, é apenas uma coisa que aconteceu comigo pela primeira vez.

No fim das contas…

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Castelo onde Vlad teria vivido, na Romênia.

Em uma análise geral, “Vlad: A última confissão” é um bom livro, com um belo projeto gráfico, história interessante, pontos altos realmente incríveis, embora traga uma tradução que deixe a desejar e momentos um pouco monótonos, talvez devido a uma certa indiferença que senti pelo destino do protagonista nas páginas finais.

Recomendo fortemente para todos que querem conhecer o Drácula fora do âmbito do mito, entrar de cabeça na história e ler um bom livro!

estrelas copy

Jovi

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Um comentário em “Vlad – a última confissão – C. C. Humphreys

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