Todo Dia – David Levithan

“Você aprende o valor de um dia porque todos os dias são diferentes” –  Todo dia, p.93.

capa Todo dia david levithan

Imagine não ter um corpo para chamar de seu. Imagine que, a cada novo despertar, você é uma pessoa diferente, vive uma vida diferente, a vida dessa pessoa.

A cada dia, todo dia.

Essa é a vida de A, o(a) protagonista mais apaixonante que eu já conheci. Como isso é possível? É o que tentaremos compreender na resenha de hoje! Vem com a gente!

“Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver” – Todo dia, p.12.

A trama de David Levithan é simplesmente impossível de ser ignorada. Eu nunca havia conhecido um(a) protagonista como A antes. Ele (ou ela?) não possui um corpo. Desde que se entende por gente tem habitado corpos de outras pessoas por um dia. Ao acordar, está em quartos diferentes, com famílias e problemas diferentes, tendo que lidar com uma existência que não é a sua, por um único dia. Sim, porque, após a meia noite, A é levado(a) para outro corpo, outra vida, mesmo que não queira partir.

Seus “hospedeiros”se lembrarão apenas vagamente do dia que foi vivido por A, e seguirão suas vidas como se nada tivesse acontecido. Se lembrarão só das lembranças que A permitir. Eles continuarão suas vidas normalmente. A só pode habitar um determinado corpo uma única vez.

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No entanto, nosso(a) protagonista apenas é capaz de estar em corpos que correspondam em idade com ele(a), no caso, pessoas com 16 anos. Não importa se sejam meninos ou meninas, obesos ou padrões estéticos aclamados, se a vida é um raio de sol, ou depressiva e obscura. Para a pessoa que é “invadida” por A, ele(a) sempre tentou viver por meio de regras bem estabelecidas: interferir o mínimo possível.

Tudo muda no dia 5.994, quando A acorda como Justin. Justin é um cara um pouco egoísta e largado. Outro ponto importante sobre Justin:  ele tem uma namorada a quem não dá tanto valor assim, chamada Rhiannon.

Rhiannon acaba mudando as prioridades e regras de A. Ele(a) se apaixona.

Mas como manter um sentimento por alguém que você não vai ver no dia seguinte? Que nem sabe que você existe? Sim, A possui seus próprios anseios e personalidade, distintos dos corpos que habita. Mas não há como vivê-los integralmente. Ele(a) precisa respeitar a vida que o corpo no qual acordou já tem previamente. Pelo menos ele sente que deve.

“As pessoas não dão valor a continuidade do amor assim como não dão valor a continuidade do corpo. Não percebem que a melhor coisa sobre o amor é sua presença constante” – Todo Dia, p.53.

 ALMA X CORPO

A é um(a) protagonista sensacional. Encantador(a). Como isso é possível? Passamos a conhecê-lo(a), quem ele(a) é, o que busca e como é gentil e consciente das particularidades e diversidades humanas. Mas ele(a) não tem um corpo físico. Algo difícil de processar, não?

Para ele(a) também. É uma existência solitária. Extremamente solitária. Não ter ligações que duram mais de um dia. Não criar laços. Não ser conhecido por absolutamente ninguém. Nunca ter um relacionamento de verdade.

No entanto, o fato de ter se apaixonado por Rhiannon muda a maneira como A vê sua própria vida. Ele(a) passa a  querer mais do que apenas um dia, e é aí que tudo fica complicado.

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“O que vale é quem somos por dentro”. Já ouvimos e falamos isso um milhão de vezes, não é? Não deixa de ser verdade. A só tem esse “por dentro”. Mas qual a implicação do nosso corpo para quem somos? No que ele interfere no que pensamos de nós mesmos e nas construções sociais que ele produz?

Essas são questões muito profundas e que o autor aborda de maneira muito delicada e sincera ao longo do livro.

A está em tantas vidas e corpos diferentes que compreende que, no fundo, os pre-conceitos construídos culturalmente são frágeis e mesmo irracionais:

” (…) todos nós temos cerca de 98 porcento em comum com todos os outros. Sim, as diferenças entre homens e mulheres são biológicas, mas se você observa a biologia como uma mera questão de porcentagem, não há muita coisa diferente. A raça é diferente apenas como uma construção social, e não como uma diferença inerente. E quanto à religião, quer você acredite em Deus, Javé, Alá ou qualquer outra coisa, é provável que, em seu coração, vocês queiram a mesma coisa. Por uma razão qualquer, nós nos concentramos nos dois porcento da diferença, e a maior parte dos conflitos que acontecem no mundo é consequência disso” – Todo dia, p.70. 

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Outro ponto extremamente interessante é a capacidade de conexão entre o corpo e a mente. A está em vários corpos que que estão doentes nas duas instâncias. Ele percebe a importância biológica e química na construção de um processo depressivo, a ilusão psicológica de superioridade que advém de se criar bases que estão solidificadas na aparência, ou a solidão e sofrimento que surgem ao ter um corpo fora dos padrões.

“Tenho vontade de sacudir garotas como Ashley e dizer que, por mais que lutem contra isso, a aparência adolescente não vai durar para sempre, e que há bases muito melhores para construir a vida do que sobre a beleza” – Todo dia, p.130.

Ele(a) também aborda a questão do amor de maneira simples e profunda. Não importam os gêneros quando o que está em jogo são sentimentos reais:

“Nunca me apaixonei por um gênero. Apaixonei-me por indivíduos. Sei que é difícil as pessoas fazerem isso, mas não entendo por que é tão complicado, quando é tão obvio.” – Todo dia, p.123.

CONCLUINDO

“Sempre haverá mais perguntas. Toda resposta leva a mais perguntas. O único meio de sobreviver é abrindo mão de algumas” – Todo Dia p.186.

Vá ler este livro. Sério. Fure sua fila literária e vá ler “Todo o Dia”. Se permita conhecer A e toda a profundidade que o autor coloca nesta leitura.

É incrível como somos capazes de nos cativar por um(a) personagem completamente sem descrição física. A é apenas a ideia de alguém. Existe mas não é palpável. É real, mas não material.

A é uma pessoa boa. Mas, como diz Robert Mackee em seu excelente livro sobre construção de roteiros, o personagem só é o que é quando confrontado com uma escolha realmente difícil. A decisão vai definir quem ele é de verdade.

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E quem A é no fim?

Para descobrir essas coisas você precisa abrir “Todo Dia”. A única parte triste é que, depois de 280 páginas, o livro acaba e, posso te garantir, virá um luto literário cruel! ^^

Vem me contar o que achou do livro e da resenha! Vou adorar descobrir 🙂
Até a próxima!

five stars

Jovi

 

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2 comentários em “Todo Dia – David Levithan

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