Morgana das Fadas: vilã ou protagonista?

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Morgana Pendragon. Arte de Emily Balivet

Morgana é fada? Ela é bruxa? A irmã do famoso rei Artur Pendragon tem sua fascinante personalidade sendo construída ao longo dos anos em uma rede das mais diversas interpretações.

Poderosa, melancólica ou temida, seja qual for a versão, ela é encantadora. E misteriosa! Quer conhecer mais sobre Morgana das Fadas de Avalon? Vem com a gente que o tema é bom!

“A primavera volta sempre, sempre e sempre, a ela segue-se o verão com seus frutos. Mas eu estou só e estéril, como uma dessas virgens cristãs trancadas através das paredes de um convento.” – Trecho extraído da tetralogia As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.

Contradição. Seja qual for a versão, esta palavra parece definir a postura da personagem Morgana das Fadas nas famosas lendas arturianas. Entre a liberdade e a submissão, ela parece personificar os embates entre a religião pagã de devoção à deusa, e uma cristianização crescente que a substituiria.

Mas afinal, o que são as lendas arturianas mesmo?

O chamado “ciclo arturiano” é um conjunto de novelas de cavalaria que contam a história do rei Artur e como, junto com seus fiéis cavaleiros da távola redonda, lutou para defender a Bretanha das invasões saxãs.

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Morgana das Fadas. Arte de Andrew Lang.

No século XV é lançada uma coletânea de lendas inglesas e francesas  sob o título “A morte de Artur”. Escrita por Thomas Malory, percebemos por seu exemplo, como era comum no período em questão, abordar figuras femininas sob duas égides: ou eram portadoras de um pecado de luxúria, ou indefesas mocinhas recatadas.

Era preciso defender e cuidar das jovens mulheres… ou temê-las.

Chamada de “fada” por seu grande poder, feitiçaria e beleza, a figura de Morgana, a irmã do rei que se rebela contra os rumos de seu reinado, é revestida de elementos que a transformam em vilã e adversária implacável.

O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão argumenta que a lenda de Morgana sofre grandes alterações no século XII, ao se difundir largamente. Ainda segundo Mourão, Morgana era antes descrita, nas lendas celtas, como uma espécie de gênio mágico com capacidade de curar. A ela cabia a tarefa de resgatar Artur do campo de batalha e aliviá-lo de graves ferimentos. Com a difusão da lenda, Morgana se transforma em irmã do rei, inimiga da cunhada Guinevere, e implacável antagonista de Artur.

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Morgana Pendragon, interpretada por Eva Green na série Camelot (2011).

Ela vira ambivalência pura! O que, convenhamos, só torna a personagem ainda mais interessante. Oscilando entre o remorso e culpa de ter tido um filho do próprio irmão e a responsabilidade em assumir seu posto como sacerdotisa de Avalon, ela é a imagem da transição entre paganismo e cristianismo. O mito de Morgana das Fadas sobrevive ao tempo e ainda continua a ser reinterpretado em diversos materiais literários, séries e filmes ao longo dos anos.

As Brumas de Avalon e o protagonismo feminino

A escritora norte-americana Marion Zimmer Bradley, em 1979, revoluciona a forma de abordar o ciclo arturiano ao dar voz e ares de protagonista a nossa Morgana. Em “As Brumas de Avalon”, é Morgana quem narra a história, nos seus termos e interpretações. Centrada na figura da mulher, Marion aborda a religião de Avalon e seu culto à deusa como o fora em antigas religiões pagãs reais, entrelaçando aspectos da natureza, do feminino e espiritualidade.

No artigo “A sociedade matrifocal e o patriarcal na era arturiana: a representação de Morgana em As Brumas de Avalon”, a pesquisadora Marion Souto da Rosa Lemes afirma que os pagãos da pré-história enxergavam a fecundação como um evento cercado de especulações:

” Como o papel do macho na fecundação era misterioso, bem como os processos de parto e de sangue menstrual, o homem também definiu um caráter mágico para a relação sexual” – Marion Souto da Rosa Lemes, p.18.

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Artur e Guinevere. Arte de Arthur Hughes.

Esse aspecto sexual e transcendental das religiões pagãs está presente em “As Brumas de Avalon”, assim como uma crítica a essa transformação da sexualidade feminina em algo pecaminoso que deveria purificar-se. Morgana vive em um estado paradoxal de pertencer à esses dois universos, estes dois pensamentos. No entanto, sua força claramente está atrelada a cidade mágica de Avalon, onde ainda tenta se manter vivo os cultos pagãos da deusa.

Enquanto Guinevere, esposa de Artur, personifica uma sexualidade desvinculada do sagrado, quase em antagonismo com esse, Morgana funde os dois.

As personagens femininas em “As Brumas de Avalon” são complexas e destrincham mais do que aspectos místicos ou históricos, elas falam dos próprios anseios humanos, em destaque, os anseios e afirmações da condição feminina.

Livros sobre Morgana e Artur Pendragon

Ficou curioso e quer ler mais sobre a Morgana e Artur Pendragon? A gente traz algumas dicas rapidinhas pra você! Se já leu alguma delas ou tem outras indicações, comenta aí no post! Vamos adorar ler sua opinião!

  • As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
  • A Espada na Pedra – T. H. White
  • As Crônicas do Rei Artur – Bernard Cornwel

 

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A coleção “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley.

Espero que tenham curtido a matéria e até a próxima!

 

Jovi

 

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4 comentários em “Morgana das Fadas: vilã ou protagonista?

  1. Adoro a Morgana. Em compensação, to sempre torcendo para a Guinevere morrer, o mulher que se contradiz! Acha que tudo é bruxaria, mas quando quer ter um filho e não consegue, correr pedir uma poção…
    “Oscilando entre o pecado de ter tido um filho do próprio irmão” – na verdade, ela se sente mal por ele ser o irmão, por ter sido usada e enganada pela Viviane, mas não por ser pecado ou medo de deus, até porque o pecado era algo do cristianismo e eles não tinham isso em Avalon.
    Estou acabando o último livro de As Brumas, e tô achando excelente. Triste por Artur ter traído Avalon.
    bjs
    Rafa

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigada pelo excelente comentário Rafa! Adorei ler seus apontamentos 🙂

      Sobre a questão da maternidade da Morgana e ela oscilar entre a religião Cristã e a pagã, o artigo da Marion Souto, citado ali em cima na matéria, é uma excelente pedida! Ela mostra como a Morgana foi criada em duas culturas, já que, antes de ir para Avalon, ela teve uma educação um pouco cristã além de, após a gravidez, se voltar para ela, resolvendo abdicar dos seus poderes, responsabilidades como sacerdotisa e de seu filho, Mordred.
      Ela vive neste pêndulo, essa transição de culturas e pensamentos. Essa é uma das coisas que acho fascinante nela 🙂
      Que bom que está lendo a tetralogia! Volta aqui pra comentar o que achou do final do livro quando tiver virado a última página, vamos adorar saber ^^
      Bjs
      Jovi

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  2. Salvei o artigo pra ler depois que acabar os livros. Mas, pra mim, apesar de ela ter sido criada até os 11 anos como cristã, depois que ela deixa Avalon ela não volta a ser cristã. Ela abre mão dos poderes, visão, ensinamentos e sacerdócio, mas ela continua acreditando na deusa. Apesar de viver na corte cristã por muitos anos, ela não participa das cerimônias cristãs. Ela se afasta de Avalon, e depois não é capaz de voltar, mas se afasta mais por ressentimento com a Viviane, do que com a deusa.
    Acho que o abandono do Mordred, em parte, foi culpa da Mourgase. Talvez se ela não tivesse insistido em afastá-lo da Morgana, ela teria o criado.
    Quando acabar os livros, volto para dizer o que achei dela no último livro (já vi que ela tá tomando decisões sobre Avalon e a religião).
    Fiquei curiosa para ler o artigo.
    Bjs
    Rafa

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ei Rafa!
      Acho que o que torna a personagem Morgana tão fascinante é essa multiplicidade de interpretações não é? Como as pessoas reais, não há um único termo ou fio condutor. O que é fascinante! Acabei sentindo a hesitação dela, a raiva de Viviane e o sentimento de ter sido traída como parte de sua criação cristã. Ela não fora criada naqueles termos e parâmetros a vida toda. Era mais difícil para ela entender a Senhora do Lago do que o teria sido se ali sempre estivesse. Essa cisão e dualidade de criações a formaram como é, e, particularmente, acho isso encantador na personagem. Concordo muito com você sobre Mordred também. Durante a fragilidade de Morgana, perdê-lo foi mais simples do que se ela estivesse forte e consciente de seu papel como sacerdotisa. Aposto que vai adorar a leitura do último livro e já digo que recebemos seus comentários e apontamentos com muito carinho!
      Obrigada por acompanhar nosso trabalho e contribuir para que ele seja ainda mais rico e com diversidade de opiniões e interpretações. Espero que goste dos posts futuros 😀
      Bjs,

      Jovi

      Curtido por 1 pessoa

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