A invenção de Gutenberg

Como uma máquina pode mudar sua forma de comunicar?

“Há uma noção de Início da Idade Moderna que, enfatizando acontecimentos famosos como a descoberta do Novo Mundo ou a invenção da imprensa, subsume os movimentos e as mudanças que criaram a impressão de ‘deixar para trás’ o que fora até então chamado de ‘Idade das Trevas’.” (GUMBRECHT, Modernização dos sentidos, p. 9)

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Johannes Gutenberg

Em 1450 o inventor Johannes Gutenberg se via diante de um problema: não havia formas de impressão como conhecemos hoje. Já imaginou isso? Não conseguir imprimir rapidamente aquele documento para o trabalho, ou mesmo um livro! Nossos amados livros…

Pois é. Esse sujeito alemão resolveu que solucionaria o problema! (ufa!)

Inventou a técnica de impressão de tipos móveis, que tornou possível reproduzir livros em grandes volumes, com custo e tempo muito menor do que o da reprodução manual. Essa invenção não apenas mudou a técnica de reprodução dos livros, mas também toda uma forma do homem se relacionar com o mundo, de se comunicar e de reproduzir conhecimento!  Você deve estar se perguntando agora: “O que diabos é essa tal de impressão de tipos móveis?”, não é? A gente explica!

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Senhoras e senhores, a revolucionária máquina de tipos!

Como vemos na imagem ao lado, o que Gutemberg idealizou foi uma enorme prensa de madeira onde se colocavam tipos em uma matriz espelhada. Faz-se pressão numa superfície com tinta, e voilá! Transfere-se a escrita para uma superfície de impressão. Como já diz o título da invenção, os tipos são móveis, com isso, são colocados na matriz da forma que bem entendermos, para dar forma ao texto. Engenhoso, não?

O pesquisador e literário Hans Gutembrecht, afirma que ocorreram uma sequência de mudanças, no mundo europeu – como a descoberta das Américas, e a invenção da imprensa – capazes de fazer emergir um “tipo ocidental de subjetividade – para uma subjetividade que está condensada no papel do observador de primeira ordem e na função de produção de conhecimento.” (GUMBRECHT, 1998, p.12). O homem que via-se parte da criação divina, passa a reconhecer-se como “sujeito da produção de saber”. Resumindo: o que temos é um enorme brainstorm criativo onde o homem passa a criar e modificar sua própria existência 🙂

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Tipos Móveis

Nosso amigo Gumbrecht defende que o surgimento da imprensa trouxe uma nova relação entre texto e leitor/espectador, “para a transcrição da vida cotidiana, o manuscrito impõe, na história das mentalidades, valores diferentes daqueles impostos pelo impresso” (GUMBRECHT, 1998, p.73). Afinal, não é a mesma coisa estar diante de um manuscrito, e de uma impressão corriqueira, não é mesmo?

Enquanto os textos manuscritos necessitavam de um copista e, por vezes, um recitador, com a invenção da imprensa a função do corpo como provedor de sentido, aquele que promove a comunicação é substituída:

“Definitivamente, o corpo humano não era mais o veículo de constituição do sentido; o corpo fora visivelmente separado do veículo de sentido, o livro, pela introdução de uma máquina […]. Ao mesmo tempo em que era aliviado de sua função de veículo de constituição do sentido, o corpo era também liberado de sua função de fonte do sentido.[…] o autor espacialmente ausente tornou-se o ‘provedor’ de sentido na situação relacional da leitura” (GUMBRECHT, Modernização dos sentidos, p.75)

Homem vs. máquina já era um tema em pauta! (wow!) Não temos mais um monge a copiar interminavelmente, pingando de suor e cansaço, páginas inteiras, não! Agora a máquina pode fazê-lo mais rápido e precisamente. ( o que também “provocou” o surgimento de livros sem imagens – mas isso é uma outra história)

Continuemos com Gumbrecht: ele fala, também,  da necessidade de Prólogos. É através dos prólogos que o leitor pode compreender a intenção do autor.

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Bíblia de Gutenberg o primeiro livro a ser impresso por Gutenberg foi uma bíblia.

Mas não só de Gumbrecht vive o mundo senhores (rsrs), o historiador Robert Darton afirma que o livro impresso criou, sim, uma diferenciação no campo da literatura, entretanto não muito significativa (poing!). Para Darton, o livro impresso não configurou uma mudança na estrutura e organização do livro nem da leitura, a real mudança se deve ao hábito de como as pessoas leem :0 (ele afirma que em algum momento, em algum mosteiro, monges trocaram a leitura oral por uma leitura silenciosa…)

De fato uma mudança tão significativa quanto o modo de se comunicar não poderia ocorrer de outra maneira, se não gradativamente. É após o surgimento da imprensa, por exemplo, que a palavra “autor” começa a obter o significado que ela tem “hoje”. O que isso significa? bem, é que a palavra auctor em latim, assumia diferentes papéis, era, por exemplo, o recitador, como também o financiador e até mesmo – para o cristão medieval, o seu Grande Criador.

Pós Gutenberg

Outro fato curioso é o apresentado pela pesquisadora Ana Paula Megiani. Vamos ver:

“[…] na China foram inventados o primeiro papel e a primeira técnica de impressão dos livros, por volta do século II d.C […]. Também no Oriente surgiu a técnica dos caracteres móveis de barro endurecido com resina […]. Todo esse desenvolvimento antecedeu em séculos a imprensa ocidental, mas permaneceu, no Ocidente, restrito às esferas do poder imperial…” (Ana Paula Megiani, O rei ausente, p.192)

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Livro Das festas que se fizeram na cidade de Lisboa descreve a festa para a entrada do monarca espanhol

Esses chineses! Ana reflete, em seu livro O Rei ausente,  de que forma os monarcas espanhóis (os reis Filipes II e III), durante o período da União Ibérica, se utilizaram da imprensa para administrarem um extenso território (que cobria metade do mundo). [*no caso já estamos falando dos séculos XVI e XVII.]

É importante notar que esses reis, afim de se fazerem presentes nos territórios que dominavam, utilizaram da impressão de cartas, documentos, livros, folhetos e gravuras que poderiam ser amplamente distribuídos (espertinhos!). Esses folhetos eram capazes de cruzar o atlântico, vejam só vocês. Filipe II e III poderiam não estar presentes fisicamente, mas suas imagens, ordens e acontecimentos circulavam entre a população. Presença ausente!

Mas essa invenção não foi um mar rosas… Tinha que ter uma treta né?

A informação e o conhecimento não estavam mais condensados em uma pequena parcela da população. Ou seja: o conhecimento começaria a se espalhar incontrolavelmente em todas as classes! Na península Ibérica, por exemplo, a inquisição fazia visitas a navios e livreiros na busca de livros protestantes. Segundo documentos da época, os livros protestantes chegavam ao meio de comidas ou escondidos nos porões dos navios. Eram publicados catálogos com os títulos dos livros proibidos, e qualquer publicação deveria passar pelo crivo de um inquisidor afim de receber as licenças necessárias, os editores e livreiros que publicassem ou vendessem livros sem autorização era multados e punidos. Uma verdadeira caça aos livros!

A censura reflete, geralmente, uma tentativa desesperada de “congelamento” de uma situação, um medo de que tudo o que você conhece e acredita, mude. Provavelmente se vivêssemos naquela época seríamos incapazes de enxergar que, cedo ou tarde, tudo seria diferente, de que a proibição da circulação de alguns livros, retarda mas não apaga um processo que já está acontecendo.

Desde a criação de Gutenberg as formas de impressão e reprodução vem evoluindo, e a nossa forma de interagir e comunicar mudou significativamente (e as impressoras têm vida própria). Hoje vivemos em uma “nova era de mudanças”, com outras formas de comunicação MUITO mais rápidas. Temos hoje o debate sobre os e-books, dispositivos próprios para a leitura que suprimem a necessidade do livro impresso, a propriedade intelectual e até mesmo “a morte do autor”.

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Centenas de livros em um mesmo lugar!

Uns encontram-se abertos para as mudanças, outros extremamente fechados… A verdade? Talvez  seja a de que não estamos verdadeiramente prontos para a mudança e, de repente, ela passa pela gente sem nem percebermos.

A propósito….

Shhh!!

– Você deve estar lendo isso através de uma TELA!

_ Dupla dinâmica responsável por esse texto:

JoviJULIA

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2 comentários em “A invenção de Gutenberg

  1. Isso me lembrou um post do MeioBit sobre prensa. Está na moda fazer cartões de visita usando esse tipo de prensa. Só que hoje em dia, nesses cartões, tem que ter um email e/ou uma hashtag. Só que o símbolo @ e o # eram produzidos em baixa escala, logo hoje em dia, essas peças estão escassas. As pessoas estão usando impressoras 3D para imprimir essas peças e voltar a fazer cartões prensados.

    Uma crítica interessante que tem no post deles é que as pessoas estão usando tecnologia de ponta para poder continuar tecnologias “ultrapassadas”.

    http://meiobit.com/305097/simbolos-e-caracteres-especiais-para-servicos-tipograficos-estao-se-tornando-raros-nas-pequenas-graficas/

    Curtido por 3 pessoas

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