Bela e a Fera – Jeanne Marie Leprince de Beaumont

Me ame antes que a última pétala caia….

Uma jovem humilde, de exterior bonito como o dia e dedicada ao velho pai; um ser monstruoso, com traços que lembram ora um leão, ora um javali. Aparentemente brutal, mas de bom coração.

E uma rosa.

Estes são os personagens principais do meu conto de fadas preferido: “Bela e a Fera”. Um viva a Jeannie-Marie por esta obra icônica da literatura infantojuvenil! Icônica Jovi? Sim!

Você sabia que a “Bela e a Fera” foi o primeiro texto da literatura infantojuvenil? Não? Bom, agora você já sabe, ne´? 😛 Antes da Branca de Neve dar uns rolês com anões, ou da Bela Adormecida relaxar os ossos por anos a fio, a nossa protagonista aqui encontraria, no castelo de um príncipe amaldiçoado, o sentimento verdadeiro de amor que ultrapassaria a beleza externa.

A francesa Jeannie-Marie Leprince de Beaumont, responsável por estamos hoje sentados confortavelmente lendo, ouvindo, escrevendo e vestindo (por que não?) a “Bela e a Fera”, escreve este conto em 1757 (!). Segundo a pesquisadora Maria Cristina Martins, este texto é considerado pelos folcloristas uma das histórias mais conhecidas e adaptadas, contando com aproximadamente 1500 versões!

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Jeanne-Marie Leprince Beaumont

É justamente sobre duas delas que vamos falar hoje, celebrando (antecipadamente) o Dia Internacional do Livro Infantil! Pega o café aí que eu espero!

Editora Poetisa assume para si a tarefa de, em sua publicação de estréia, trazer ” Bela e a Fera” em um exemplar lindamente ilustrado e de identidade visual marcante. Como explicam, a tipografia brilhante e chamativa na capa foi desenvolvida especialmente para esta edição, que conta com um trabalho cuidadoso da tradutora Marie-Hélène Catherine Torres e ilustrações sombrias e coerentes do talentoso Laurent Cardon. Os traços de Cardon se assemelham a gravuras e rabiscos com carvão que formam uma imagem incerta, indecisa, uma beleza de contrastes de luz e escuro.

As páginas se alternam entre brancas e negras também, dando o tom de paradoxos e binarismos da própria história. Um primor! Se eu pudesse, no entanto, mudar algo, faria esta edição em capa dura. Capas duras parecem ter cheirinho de contos de fadas! (:D)

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Edição da editora Poetisa.

A narrativa é simples e direta, escrita como se alguém a estivesse ditando oralmente. Expressões como: “pois já lhe falei que esse era o nome da mais nova”, fazem com que o narrador fale diretamente ao leitor. Os acontecimentos vão se sucedendo sem parar, sem mistérios ou alardes prévios. Só acontecem! Sem justificativa, apenas para que a história siga em frente. Tem uma pegada de oralismos e conversas ao pé do fogo, antes de dormir.

Para falar da sinopse e do conteúdo em si, elegi uma comparação. Quando pequena, conheci a “Bela e a Fera” pela famosa adaptação de Walt Disney, lançada em 1991. Acredito que muitos de vocês, que estão lendo este texto agora, também conheçam primordialmente esta versão. Ela tem diferenças, por vezes estruturais, e também aproximações com o livro de Beaumont modificando, em alguns momentos, a nossa forma de ver e sentir os personagens.

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Ilustração minha do conto de Beaumont. Gostaram? Está a venda estampada em camisetas e outras coisinhas legais AQUI!

Na história contada pela Disney, Bela e seu pai moram no campo. Ele, cientista, ela, uma sonhadora amante dos livros, filha única que almeja um futuro para além do interior onde mora. Já no texto original, Bela possui várias posses e mora com algumas irmãs e irmãos, na cidade. Seu pai é comerciante e repentinamente perde todos os investimentos, tendo que se mudar forçosamente para o campo. Apesar de mencionar os pretendentes de Bela e suas irmãs, não há, aqui, uma figura específica que corteje Bela. No caso da Disney, temos esse papel sendo desempenhado pelo personagem Gaston, o antagonista da trama na película animada.

O ponto de virada que fará Bela conhecer a Fera, no livro original, está condicionado à uma viagem de negócios do pai que, estando de passagem pelos comércios citadinos, pergunta às filhas o que desejam que ele traga como presente. As irmãs, vaidosas e egoístas, pedem artigos caros, ignorando a posição financeira frágil que o comerciante ainda se encontrava.

Bela pede apenas uma rosa.

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Cena do filme “A Bela e a Fera”, dos estúdios Disney.

A rosa, tanto no livro de Jeanne-Marie, quanto em Disney, funciona como mais um dos paradoxos entre beleza e dor, morte e vida. Ao mesmo tempo em que é o presente mais modesto, a rosa de Bela faz com que seu pai seja aprisionado pela Fera. Como pagamento pela libertação do velho homem, o monstro exige uma de suas filhas para ocupar-lhe o lugar.

A rosa causa a dor da separação entre pai e filha, é graças à uma rosa roubada que Bela é aprisionada no castelo do príncipe monstruoso. Na animação, por sua vez, a flor é como um “relógio” cujas pétalas vão caindo para marcar o tempo que resta à Fera. Caso a última pétala caia sem que ninguém o ame a despeito de sua aparência, ele estará condenado a permanecer Fera para todo o sempre. Apesar da beleza, a rosa é nefasta em ambas versões, assim como o caráter das irmãs de Bela no conto, assim como o caráter do pretendente Gaston, no filme animado.

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A rosa como representação da maldição e aprisionamento.

No livro, é Bela quem enfrenta a inveja do “vilão”: suas irmãs. Descontentes da beleza, humildade e sorte da caçula, buscam prejudicá-la de todas as maneiras. Atingem o ápice na tentativa separar Bela da Fera e, com isso, romper a relação de amizade dos dois.

As virtudes de Bela se sobressaem no conto, por estarem justapostas a vileza das suas irmãs cruéis e invejosas.

Na animação, este papel cabe à Fera. Detentor do carinho genuíno da moça, a Fera do desenho atrai para si a fúria de Gaston que, mesmo com seus músculos e popularidade, jamais chamou atenção de Bela. A violência e brutalidade dele contrastam com o olhar melancólico e gentil da Fera, fazendo com que as virtudes deste apareçam mais em comparação ao comportamento do pretendente irado e rejeitado.

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Ilustração de Laurent Cardon para o livro “Bela e a Fera”, da editora Poetisa. Bela, em meio às rosas que condenaram o destino de seu pai no castelo da Fera.

O ritmo acelerado do texto não permite a construção de afetos que o filme possibilita, fazendo com que a descoberta do amor entre os dois personagens seja um acontecimento descrito em poucas linhas. Os motivos que levaram a Fera a ser amaldiçoada, também são revelados de forma corrida apenas ao final da leitura. Aqueles que estavam acostumados à película, como eu, podem estranhar um pouco e esperar mais destas passagens.

Ao citar o livro de Gloria Radino “Contos de fada e realidade psíquica: a importância da fantasia no desenvolvimento”, as pesquisadoras Luísa Puricelli Pirese e Tatiana Helena José Facchin afirmam:

“Através dos contos de fadas, […] a criança media a relação entre os mundos interno e externo, desenvolve a linguagem por meio do simbolismo e pode se experimentar em diferentes papéis no contexto familiar por meio da identificação com os vários personagens do conto.” 

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Bela e o príncipe amaldiçoado.

Vemos, com isso, a relevância e sensibilidade do conto de Beaumont, ao apresentar os bons sentimentos personificados nos corpos dos personagens. Ao sentir amor e conseguir inspirar amor, a Fera torna-se príncipe, enquanto que os sentimentos maus corrompem a aparência e destino dos personagens que se comprazem na inveja, despeito e violência.

Ao escolher a Fera de forma genuína, Bela consegue uma recompensa maior do que aquela que um dia pudera imaginar. Ao ser humilde e altruísta, a nossa protagonista mostra aos leitores que o que realmente importa não é tangível, material ou ilusório, mas sim, o que cultivamos dentro dos nossos corações. Se este leitor for uma criança que, como afirma Radino, experimentar neste universo ficcional da escritora francesa diferentes pontos de vista e papéis, acredito que terminará a leitura um pouco mais empática com o mundo e as diferenças.

Esta é uma leitura de poucos minutos, para finalizar a tarde comendo biscoitos com achocolatado no meio de cobertores quentinhos. No entanto, você vai ficar olhando as ilustrações de Cardon por muito mais tempo que isso!

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Jovi

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