A Rosa Branca Rebelde – Janet Paisley

A mulher é metade do mundo, ghràid

Tateando rastros apagados da história de uma guerreira escocesa rebelde, Janet Paisley remonta, de forma ficcional (importante que se diga), a luta dos rebeldes jacobitas para manter viva sua identidade diante da opressão inglesa. O livro traz para a luz o nome de Anne Farquharson, mulher determinada das Terras Altas que recusa a submissão e assume papel de protagonismo em um levante brutal entre Escócia e Inglaterra.

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Retrato de Anne Farquharson, heroína jacobita.

Os personagens, inicialmente, podem causar certa estranheza ao leitor. A separação por clãs nas Terras Altas no século XVIII, o comportamento feminino bem como o sistema econômico e político são entendidos nas entrelinhas, entre as conversas dos personagens e os acontecimentos que se seguem. Entretanto, sem nos dar conta, já estaremos livres da sensação de incômodo e completamente imersos em uma riquíssima cultura, na qual a divisão de atributos e separação rígida de gêneros não existia. As mulheres escocesas gozavam de uma liberdade de escolha, respeito e expressão sexual que não contemplamos nem mesmo nos modernos dias atuais. A sexualidade, por sua vez, é um tema bastante explorado no livro e, apesar de também atuar como fator de estranhamento nas páginas iniciais, com o correr dos capítulos integra e naturaliza a cultura jacobita, auxiliando a criar laços entre os personagens, construindo suas personalidades.

Confesso que meus conhecimentos sobre o tema não são muito extensos, definitivamente não é um assunto que eu conhecia de forma aprofundada antes de ter contato com o livro, portanto, não saberia dizer com precisão, qual o grau de realismo que a autora emprega quando trata da liberação feminina. A autora Susan Lanser, ao analisar a sexualidade na história aponta que sim, a cultura jacobita se mostrava aberta a participação feminina em diversos níveis. A autora ainda coloca que essas mulheres eram tidas pelos ingleses como masculinas, insubordinadas, cujas opiniões iam além das paredes do lar, alcançavam o campo de batalha.

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Preparem-se para batalhas sangrentas e para ficar com o coração na mão!

Além de Anne, diversos nomes surgem de forma potente na escrita de Paisley. Dentre eles destaco a figura do chefe Aeneas McIntosh e Alexander McGillivray. Aeneas se complexifica como personagem a medida que se vê diante de decisões dolorosas que envolvem não apenas seu próprio destino, mas o de sua família e país. O espírito forte e gentil mas teimosamente orgulhoso de McIntosh, trazem o personagem para a vida de uma maneira bastante sincera. Pequenos trejeitos, hábitos e expressões faciais recorrentes narradas pela autora, são capazes de formar imagens críves ao leitor durante toda a leitura. O mesmo se dá com a descrição de Alexander McGillivray, meu personagem favorito. Leal, destemido e fiel aos impulsos de seu coração, este personagem encantador atua como interessante contraponto na trama, transformando diversos outros que o rodeiam e evoluindo a medida que os acontecimentos se desenrolam. McGillivray foi o primeiro responsável por criar em mim uma empatia com essa leitura e me fazer colar os olhos nas páginas sem conseguir parar de ler até que chegasse ao fim.

Há de se dizer que a autora não nos poupa de sentir dolorosas perdas e vivenciar momentos de sofrimento junto aos seus personagens, um grande feito que me fez colocar a quinta estrela na minha avaliação. Um livro capaz de afetar o coração do leitor, para mim, é um livro que cumpre com louvor sua função.

Outro ponto positivo fica por conta da divisão dos capítulos. Eles são breves, possibilitando interromper a leitura em espaços curtos de tempo, o que não a torna, em nenhum momento, maçante ou tediosa.

Os problemas que encontrei na narrativa foram os incontáveis nomes e sobrenomes ingleses e escoceses que podem causar certa confusão no início (são muitos personagens!) além de uma falta de aprofundamento em algumas discussões políticas e descrições que auxilariam na compreensão do panorama histórico e cronológico. No entanto, estes detalhes não tiram o brilho da obra de Janet que também se apresenta como uma excelente escritora de cenas de batalha (o leitor consegue sentir a dor das mortes e o cheiro de sangue entre as valas que acomodam os corpos. Difícil encontrar isso, inclusive em alguns clássicos!)

Leia sem “pisar nos ovos da história”, entre de cabeça na leitura com a licença poética que ela merece. Vai valer a pena (^_^)

“A Rosa Branca Rebelde” foi para mim uma grata surpresa que recomendo com louvores! Uma leitura com personagens apaixonantes, que resgatam o espírito de busca pela manutenção de identidade de um povo, e levanta questões (ainda atuais!) sobre o papel feminino na sociedade. Com certeza quero ler mais coisas de Paisley!

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Batalha de Culloden, pelo artista David Morier, 1975.

five stars

Jovi

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Um comentário em “A Rosa Branca Rebelde – Janet Paisley

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